Verbete: DESAFIOS.
Certa feita perguntaram ao grande navegador John William Johnson, 37 anos, porque estava dando a volta ao mundo em um veleiro (pela terceira vez).
- Primeiro porque posso. Pode não sobrar saúde, dinheiro ou posso mesmo não estar vivo da quarta vez. Faço uma terceira porque pode não haver a próxima. Faço sem motivo, sem uma causa. Faço porque não tenho mulher nem filhos, não tenho mais mãe nem ninguém que dependa de mim, ninguém para quem a perda da minha vida seria irreparável; porque tenho amigos que me amam e ficam felizes me vendo fazer aquilo que me dá prazer mesmo que me custe a vida. E ainda, faço porque percebi que minha vida vinha sendo até então uma grande busca por algo, algo que eu não sabia o que era e nem alcançava, o que me trazia intensa angústia. Algumas pessoas chamam a isso felicidade, outras chamam de Deus, tem gente que chama até de amor. Às vezes fazer coisas sem um sentido, causa ou objetivo é a melhor maneira de perceber o quanto palavras como destino, dom, sorte, projeto e causalidade são apenas ilusões que alimentamos para ver algum sentido no caos do universo. No fundo tudo isso é fruto de um profundo egoísmo de nossa espécie que desespera em outras vidas (passadas e futuras) por medo de encarar o niilismo do cosmos. É como rir de Deus. Sem que ele entenda a piada.
- Já conseguiu patrocinador?
- Não. Mas estou pensando em pedir doações aqui na paróquia local. Ou escrever um livro de auto-ajuda. Ou o roteiro de uma comédia romântica.