Verbete: LIVRARIAS.
O segredo de conseguir sentar em uma poltrona na livraria é tentar perceber muito além das estatísticas e probabilidades, e penetrar fundo na psiqué humana. Livre-se dos estereótipos preconceituosos se quiser afundar-se em sua poltrona no Éden. Adultos não lêem mais que crianças, e idosos não vêem na poltrona uma boa oportunidade de se deliciar em uma leitura - vêem tão somente um lugar para descansar do pique inesgotável dos netos.
Por exemplo. Esqueça uma poltrona quando uma criança pegar "O ser e o nada". Pode ser que ela nunca mais levante, relativizando a relação do para-si com o para-outro, as noções de sujeito e objeto e a compreensão da fenomenologia. Pense comigo: o movimento mais brusco que a humanidade já viu partindo de um existencialista foi uma tal de Chiquita Bacana, que morava em Martinica e vestia-se com uma casca de banana-nanica. Pelo visto, o existencialismo é incapaz de levar alguém ao menos a sair de uma poltrona.
Já Paulo Coelho é extremamente estimulante. Se você vir uma senhora lendo "As Valquírias" ou "Verônica decide morrer", pode encostar ali ao lado e esperar pelo fim da primeira página. Batata. Ela irá se levantar e pegar um outro livro. Este é o momento perfeito pra se enfiar numa poltrona.
Seguindo essa lógica, Luis Fernando Veríssimo é ruim, assim como Tolkien, Dan Brown, Asimov e Arthur C. Clarke; qualquer coisa da sessão de auto-ajuda, Zíbia Gasparetto (ou o espírito que escreve por ela mas não recebe o copyright) e a biografia de Mailson da Nóbrega são excelentes. Lembre-se: ruim é bom e vice-versa. Ou, em termos estatísticos, a qualidade editorial do livro que a pessoa sentada está lendo é inversamente proporcional ao seu tempo de espera por uma poltrona.
É claro que nem tudo são flores e há mistérios e surpresas nesse submundo cruel de uma livraria que não encontram base explicativa em nenhuma teoria conhecida.
Tomemos como exemplo uma pessoa que deleita-se - como fôra possível - em uma "leitura" da "revista" "Caras". O excesso de aspas é sintomático, não? Não há Tzvetan Todorov que explique o nexo das estruturas narrativas de uma matéria em que o jornalista tenta explicar ao brasileiro médio, aquele que amarga voltas até achar lugar pra estacionar ou toma transporte público todos os dias, como foi o fim de semana de Luciano Zafir na Ilha de Caras. Está posto aquele ruído na comunicação na relação emissor-meio-receptor-mensagem que McLhuan havia nos falado. O leitor não sabe se a mensagem é a bunda photoshopada da modelo (se aquela moça for garçonete eu estou indo aos bares errados!) que estava atendendo Zafir na beira d'água com um biquíni minúsculo ou saber que o pai da Sasha amarga a solidão com um bloody-mary light (supondo que bloody-mary light exista e não seja apenas mais um artifício da imprensa golpista).
Enfim, meus amigos e amigas, conseguir um lugar pra sentar pode ser uma aventura mais difícil que uma missão de James Bond. A difícil arte de conseguir sentar numa poltrona de livraria por algumas horas de paz e sossego imerso em sua leitura preferida pode ser uma grande aventura para os não-iniciados. E não é meu interesse esgotar o assunto nesta crônica. Afinal, vivemos uma contemporaneidade fluida onde a liquidez das relações ser humano-poltrona torna caducas quaisquer estratégias que não consigam avaliar o terreno com sensibilidade, precisão e, porque não dizer, um pouco de deselegância - afinal, na guerra de conseguir um lugar pra sentar numa livraria vale quase tudo...
domingo, 16 de junho de 2013
Auto do Duélogo Contemporânego
[Apresentação única encenada por Evenice Netinha, Ariane Bastos e M. Platini Fernandes na X Semana Acadêmica de História da UECE em 2004]
Ato Único: Do Valor das Pessoas-coisas e o Escambo Cultural
ou
Dos Tratados da Revolução Mental
- Diga-me, jovem Mancebo, quanto você vale hoje?
- Admirável Mestre, hoje só valho essas 3 moedas de cobre.
- 3 moedas de cobre? Mas isso é mui pouco!
- Ai, que aperreio!
- É só isso que tu vales?
- Na verdade... não.
- Não?
- Não.
- Não foste o que dissestes?
- Sim.
- E como não?
- Ai, que aperreio! Magnífico Mestre, sou tudo o que me ensinastes a ser. Se em algum momento ressôo, é que tu te fizestes como címbalo que me toca. Se hoje valho 3 moedas de cobre é que o cárcere mental em que me enclausurastes chamado “sistema” me diz que um homem só vale a quantidade de dinheiros que tiver no coldre. E sobre as regras do tal sistema...
- Hum... ai, que aperreio!
- Estive pensando...
- Não pense!
- Mas é que sinto...
- Não sinta!
- Mas se eu disser...
- Não diga!
- [gritando] Mas se eu calar até as pedras falarão!
[o Mestre dá as costas em protesto e se vira a cada tentativa do Mancebo]
[com a voz mais branda]
- Mestre, e se não for assim? E se o homem valer mais que os seus metais? Se seu valor for medido não em quantas coisas puder comprar, mas em sua capacidade de sonhar, ou ainda de transformar seus sonhos em realidade!?
- [fazendo pouco] Sonhos... huummm...! Bobagem! O último homem sonhador que conheci morreu na cruz, minto, morreu baleado na porta do hotel por um fã. Não me lembro o nome dele... era John de Nazareth, Jesus Lennon...
- Mestre, essas moedas são o bastante para comprar leite de cabra silvestre e um cesto de amoras. É o bastante para mim, a mulher e a criança por esta semana. Semana que vem trabalho um pouco mais ou caço um servo montês para nos alimentarmos. No resto do tempo posso brincar a criança, amar a mulher e tocar cítara. Assim serei feliz. Não acho que tuas moedas o façam mais valoroso que eu, pois sou feliz, mesmo com pouco, e, segundo o grego de Estagira, o homem vive em busca do bem.
- Estás questionando minha autoridade? O que te deu homem, és agora anarchista?
- Nem sei do que é isso. Sou livre.
- [gritando exaltado] Livre? Livre? Freiheit? Niemand ist frei. Die Freiheit ist der Henker, der den Mann vor Ihrer Ausführung foltert (1). Ninguém é livre sem que eu ordene!
- [começa gargalhando] Sou livre, livre, há, há, há! Livre! Sou livre!
- [se humilhando] Mancebo, te peço por clemência, não te vás, não ganhe este mundo porta-a-fora que só te trará dor e sofrimento. Continuas em minhas terras tu e família. Te protegi de todo esse mal lá fora, és feliz porque criei um mundo para ti. Isso de liberdade é um perigo, são tolices da juventude... Se abandonas tudo o que te ensinei renegas a continuidade de minha criação. Tudo que é meu será teu um dia. Se fores, levas contigo um pedaço meu.
[pensativo] Um pedaço bem mais valioso que todas as minhas terras setentrionais... [desespero no olhar]
- Sou um Mancebo que conseguiu ensinar algo a seu Mestre. Sou um homem que conseguiu se auto-ensinar-se a si mesmo sobre liberdade. Ai, que aperreio...!
[Mancebo sai pela porta. O Mestre debruça-se a chorar no chão.]
[Um novo personagem entra em cena]
- Mestre, Mestre! Demorei-me mas aqui estou!
[O Mestre enxuga as lágrimas cheio de soberba]
- A pontualidade é uma virtude essencial no bom homem. Muito bem, meu jovem, o que sabes tu sobre liberdade?
- Liberdade? Ãh?
- Hahahah hahahaah!
(1) Liberdade? Ninguém é livre. A liberdade é o algoz que tortura o homem antes de sua execução.
Ato Único: Do Valor das Pessoas-coisas e o Escambo Cultural
ou
Dos Tratados da Revolução Mental
- Diga-me, jovem Mancebo, quanto você vale hoje?
- Admirável Mestre, hoje só valho essas 3 moedas de cobre.
- 3 moedas de cobre? Mas isso é mui pouco!
- Ai, que aperreio!
- É só isso que tu vales?
- Na verdade... não.
- Não?
- Não.
- Não foste o que dissestes?
- Sim.
- E como não?
- Ai, que aperreio! Magnífico Mestre, sou tudo o que me ensinastes a ser. Se em algum momento ressôo, é que tu te fizestes como címbalo que me toca. Se hoje valho 3 moedas de cobre é que o cárcere mental em que me enclausurastes chamado “sistema” me diz que um homem só vale a quantidade de dinheiros que tiver no coldre. E sobre as regras do tal sistema...
- Hum... ai, que aperreio!
- Estive pensando...
- Não pense!
- Mas é que sinto...
- Não sinta!
- Mas se eu disser...
- Não diga!
- [gritando] Mas se eu calar até as pedras falarão!
[o Mestre dá as costas em protesto e se vira a cada tentativa do Mancebo]
[com a voz mais branda]
- Mestre, e se não for assim? E se o homem valer mais que os seus metais? Se seu valor for medido não em quantas coisas puder comprar, mas em sua capacidade de sonhar, ou ainda de transformar seus sonhos em realidade!?
- [fazendo pouco] Sonhos... huummm...! Bobagem! O último homem sonhador que conheci morreu na cruz, minto, morreu baleado na porta do hotel por um fã. Não me lembro o nome dele... era John de Nazareth, Jesus Lennon...
- Mestre, essas moedas são o bastante para comprar leite de cabra silvestre e um cesto de amoras. É o bastante para mim, a mulher e a criança por esta semana. Semana que vem trabalho um pouco mais ou caço um servo montês para nos alimentarmos. No resto do tempo posso brincar a criança, amar a mulher e tocar cítara. Assim serei feliz. Não acho que tuas moedas o façam mais valoroso que eu, pois sou feliz, mesmo com pouco, e, segundo o grego de Estagira, o homem vive em busca do bem.
- Estás questionando minha autoridade? O que te deu homem, és agora anarchista?
- Nem sei do que é isso. Sou livre.
- [gritando exaltado] Livre? Livre? Freiheit? Niemand ist frei. Die Freiheit ist der Henker, der den Mann vor Ihrer Ausführung foltert (1). Ninguém é livre sem que eu ordene!
- [começa gargalhando] Sou livre, livre, há, há, há! Livre! Sou livre!
- [se humilhando] Mancebo, te peço por clemência, não te vás, não ganhe este mundo porta-a-fora que só te trará dor e sofrimento. Continuas em minhas terras tu e família. Te protegi de todo esse mal lá fora, és feliz porque criei um mundo para ti. Isso de liberdade é um perigo, são tolices da juventude... Se abandonas tudo o que te ensinei renegas a continuidade de minha criação. Tudo que é meu será teu um dia. Se fores, levas contigo um pedaço meu.
[pensativo] Um pedaço bem mais valioso que todas as minhas terras setentrionais... [desespero no olhar]
- Sou um Mancebo que conseguiu ensinar algo a seu Mestre. Sou um homem que conseguiu se auto-ensinar-se a si mesmo sobre liberdade. Ai, que aperreio...!
[Mancebo sai pela porta. O Mestre debruça-se a chorar no chão.]
[Um novo personagem entra em cena]
- Mestre, Mestre! Demorei-me mas aqui estou!
[O Mestre enxuga as lágrimas cheio de soberba]
- A pontualidade é uma virtude essencial no bom homem. Muito bem, meu jovem, o que sabes tu sobre liberdade?
- Liberdade? Ãh?
- Hahahah hahahaah!
(1) Liberdade? Ninguém é livre. A liberdade é o algoz que tortura o homem antes de sua execução.
Da série: "A vida como não é nas novelas"... Capítulo IX
Capítulo IX:
Márcio da Mazé encostou sua moto-táxi na budega do Seu Collaço e, com aquele ar altivo que lhe é característico, pediu uma cajuína de uva. Soltando o copo americano no balcão perguntou a Marquim Cabeção:
- Qual função você acharia mais adequada para a manutenção da glória de alguém no fim da carreira: ser Irapuete no Programa Irapuã Lima, Tigresa no Programa João Inácio Show ou comentarista esportivo da TV Record?
Sobressaltado com tal colocação, Marquim Cabeção respondeu tergiversando:
- Sem uma consulta prévia às obras de Adorno e a Guy Debord é difícil afirmar com certeza. Acho que Dr. Lair Ribeiro e Roberto Shinyashiki diriam que depende da carreira que a pessoa seguiu ao longo da vida; há variáveis a serem consideradas entre onde seu coração bate mais forte e para onde seu espírito de liderança o guia.
Achando que aquela discussão não valia o que o gato enterra, Seu Colaço limpava o balcão.
Depois de tirar o gosto com um pedaço de mortadela, Márcio da Mazé detalhou sua interrogação.
- Deixa eu pormenorizar meu intróito: para alguém que só é famosa pelas pessoas que namorou e pelas inúmeras vezes que posou nua para a Revista Sexy?
- Você tá falando da Viviane Araújo? - Encarou Cabeção estupefato, erguendo as sobrancelhas. - Mas todas essas opções seriam péssimas para a imagem dela - afirmou.
- Digamos que você só tem essas três opções.
- Irapuete.
- Certeza.
- É menos infame.
Toca a trilha sonora: http://www.youtube.com/watch?v=Zu8kKcPH7co
Márcio da Mazé encostou sua moto-táxi na budega do Seu Collaço e, com aquele ar altivo que lhe é característico, pediu uma cajuína de uva. Soltando o copo americano no balcão perguntou a Marquim Cabeção:
- Qual função você acharia mais adequada para a manutenção da glória de alguém no fim da carreira: ser Irapuete no Programa Irapuã Lima, Tigresa no Programa João Inácio Show ou comentarista esportivo da TV Record?
Sobressaltado com tal colocação, Marquim Cabeção respondeu tergiversando:
- Sem uma consulta prévia às obras de Adorno e a Guy Debord é difícil afirmar com certeza. Acho que Dr. Lair Ribeiro e Roberto Shinyashiki diriam que depende da carreira que a pessoa seguiu ao longo da vida; há variáveis a serem consideradas entre onde seu coração bate mais forte e para onde seu espírito de liderança o guia.
Achando que aquela discussão não valia o que o gato enterra, Seu Colaço limpava o balcão.
Depois de tirar o gosto com um pedaço de mortadela, Márcio da Mazé detalhou sua interrogação.
- Deixa eu pormenorizar meu intróito: para alguém que só é famosa pelas pessoas que namorou e pelas inúmeras vezes que posou nua para a Revista Sexy?
- Você tá falando da Viviane Araújo? - Encarou Cabeção estupefato, erguendo as sobrancelhas. - Mas todas essas opções seriam péssimas para a imagem dela - afirmou.
- Digamos que você só tem essas três opções.
- Irapuete.
- Certeza.
- É menos infame.
Toca a trilha sonora: http://www.youtube.com/watch?v=Zu8kKcPH7co
Marcadores:
A vida como não é nas novelas,
Cofrinho de amor,
Elino Julião
Da série: "A vida como não é nas novelas"... Capítulo VIII
Capítulo VII:
Na budega do Seu Remela, Zé Maria estava inquieto cortando as unhas dos pés no balcão enquanto Gildeclei pedia meio pão passado.
- Eu nunca entendi direito o que o Walter Benjamin quis dizer representando o materialismo histórico como "um fantoche vestido à turca, com um narguilé na boca" no primeiro aforismo de "Sobre o conceito da História".
Enrolando o pão no papel, Seu Remela dá de ombros e resmunga. - Hum.
O inconformado Zé Maria continua budejando:
- Porra, já havia uma produção marxista consistente nos anos 1930. Como ele pôde fazer uma crítica dessas?
Gildeclei, querendo ser as prega, explica tácita e pausadamente como falasse a um imberbe mentecapto:
- Funciona assim. O jogador de xadrez que faz as jogadas erradas e sempre perde é o Delfim Netto. O anão jogando pelo materialismo histórico é o Garry Kasparov. O Caio Prado Júnior é o fantoche, o intelectual que sempre acerta todas em seu gabinete, mas se borra todo quando é chamado pra assumir o ministério. Entendeu?
Seu Remela dá de ombros e ergue a sobrancelha consentindo rigor à explicação didática de Gildeclei. Zé Maria não se conforma.
- Como o Kasparov poderia esconder-se embaixo de um tabuleiro, isso é ridículo e impossível! Ele nem é anão...
-É uma metáfora, imbecil.
Toca a trilha sonora:
http://www.youtube.com/watch?v=ZJ9ujH-udgw
Na budega do Seu Remela, Zé Maria estava inquieto cortando as unhas dos pés no balcão enquanto Gildeclei pedia meio pão passado.
- Eu nunca entendi direito o que o Walter Benjamin quis dizer representando o materialismo histórico como "um fantoche vestido à turca, com um narguilé na boca" no primeiro aforismo de "Sobre o conceito da História".
Enrolando o pão no papel, Seu Remela dá de ombros e resmunga. - Hum.
O inconformado Zé Maria continua budejando:
- Porra, já havia uma produção marxista consistente nos anos 1930. Como ele pôde fazer uma crítica dessas?
Gildeclei, querendo ser as prega, explica tácita e pausadamente como falasse a um imberbe mentecapto:
- Funciona assim. O jogador de xadrez que faz as jogadas erradas e sempre perde é o Delfim Netto. O anão jogando pelo materialismo histórico é o Garry Kasparov. O Caio Prado Júnior é o fantoche, o intelectual que sempre acerta todas em seu gabinete, mas se borra todo quando é chamado pra assumir o ministério. Entendeu?
Seu Remela dá de ombros e ergue a sobrancelha consentindo rigor à explicação didática de Gildeclei. Zé Maria não se conforma.
- Como o Kasparov poderia esconder-se embaixo de um tabuleiro, isso é ridículo e impossível! Ele nem é anão...
-É uma metáfora, imbecil.
Toca a trilha sonora:
http://www.youtube.com/watch?v=ZJ9ujH-udgw
Marcadores:
A vida como não é nas novelas,
Antônio Marcos
Da série: "A vida como não é nas novelas"... Capítulo VI
Capítulo VI:
Descascando uma laranja na budega Queijos de Tauá, no Montese, Zelito reclama:
- Como pôde o velho desgraçado? Depois de tanto tempo inventar uma marmota dessas?
- Tá budejando o quê aí, Seu Zelito? - Indagou o Soldado Silva.
- Tô aqui pensando como é que uma pessoa pode ter uma linha de pensamento concatenada e coerente a vida inteira e de repente dar uma guinada violenta dessas...
- O Senhor tá falando do historiador Eric Hobsbawn, que só saiu do Partido Comunista depois dos 90 anos? Ele não sacou nada quando o Thompson saiu ainda nos anos 1950?
- Não, abestado. Eu tô falando do Silvio Santos que agora inventou esse negócio de "O Maior Brasileiro de Todos os Tempos".
- E o senhor vai votar no Oscar Niemeyer ou no Fernando Henrique Cardoso?
- Eu votaria no Maílson da Nóbrega, se ele tivesse na lista. Mas acho que vou ficar com o Pelé mesmo.
Toca a trilha sonora:
http://www.youtube.com/watch?v=T_soDyOFu9c
Descascando uma laranja na budega Queijos de Tauá, no Montese, Zelito reclama:
- Como pôde o velho desgraçado? Depois de tanto tempo inventar uma marmota dessas?
- Tá budejando o quê aí, Seu Zelito? - Indagou o Soldado Silva.
- Tô aqui pensando como é que uma pessoa pode ter uma linha de pensamento concatenada e coerente a vida inteira e de repente dar uma guinada violenta dessas...
- O Senhor tá falando do historiador Eric Hobsbawn, que só saiu do Partido Comunista depois dos 90 anos? Ele não sacou nada quando o Thompson saiu ainda nos anos 1950?
- Não, abestado. Eu tô falando do Silvio Santos que agora inventou esse negócio de "O Maior Brasileiro de Todos os Tempos".
- E o senhor vai votar no Oscar Niemeyer ou no Fernando Henrique Cardoso?
- Eu votaria no Maílson da Nóbrega, se ele tivesse na lista. Mas acho que vou ficar com o Pelé mesmo.
Toca a trilha sonora:
http://www.youtube.com/watch?v=T_soDyOFu9c
Marcadores:
A vida como não é nas novelas,
Falcão
Da série: "A vida como não é nas novelas"... Capítulo V
Capítulo V:
No Salão Belle du Jour, no Barroso II, Quinhosa navega no netbook enquanto Francimar lixa seus calcanhares como se estivesse ralando queijo.
- "Acendeu-se o enxofre, mas o fogo era tão fraco que a pele das costas da mão mal e mal sofreu. Depois, um executor, de mangas arregaçadas acima dos cotovelos, tomou umas tenazes de aço preparadas ad hoc, medindo cerca de um pé e meio de comprimento, atenazou-lhe primeiro a barriga da perna direita"... Taquipariu, mulher, a conexão da Tim caiu de novo!
Após instantes, deu prosseguimento.
- "(...) depois a coxa, daí passando às duas partes da barriga do braço direito; em seguida os mamilos. Este executor, ainda que forte e robusto, teve grande dificuldade em arrancar os pedaços de carne que tirava em suas tenazes duas ou três vezes do mesmo lado ao torcer, e o que ele arrancava formava em cada parte uma chaga do tamanho de um escudo de seis libras".
- Outra mulher de empresário descobriu que ganhou um chapéu de couro? - pergunta Francimar, sempre ávida por notícias de celebridades e casos policiais bizarros.
- Não.
- A polícia de São Paulo pegou outro universitário com um baseado no Butantã?
- Não.
- É a sinopse do Tropa de Elite 3, caralho?!
- Não, é o resumo da Livraria da Folha para a nova edição de "Vigiar e Punir" comentada pelo Roberto Machado.
Toca a trilha sonora:
No Salão Belle du Jour, no Barroso II, Quinhosa navega no netbook enquanto Francimar lixa seus calcanhares como se estivesse ralando queijo.
- "Acendeu-se o enxofre, mas o fogo era tão fraco que a pele das costas da mão mal e mal sofreu. Depois, um executor, de mangas arregaçadas acima dos cotovelos, tomou umas tenazes de aço preparadas ad hoc, medindo cerca de um pé e meio de comprimento, atenazou-lhe primeiro a barriga da perna direita"... Taquipariu, mulher, a conexão da Tim caiu de novo!
Após instantes, deu prosseguimento.
- "(...) depois a coxa, daí passando às duas partes da barriga do braço direito; em seguida os mamilos. Este executor, ainda que forte e robusto, teve grande dificuldade em arrancar os pedaços de carne que tirava em suas tenazes duas ou três vezes do mesmo lado ao torcer, e o que ele arrancava formava em cada parte uma chaga do tamanho de um escudo de seis libras".
- Outra mulher de empresário descobriu que ganhou um chapéu de couro? - pergunta Francimar, sempre ávida por notícias de celebridades e casos policiais bizarros.
- Não.
- A polícia de São Paulo pegou outro universitário com um baseado no Butantã?
- Não.
- É a sinopse do Tropa de Elite 3, caralho?!
- Não, é o resumo da Livraria da Folha para a nova edição de "Vigiar e Punir" comentada pelo Roberto Machado.
Toca a trilha sonora:
Marcadores:
A vida como não é nas novelas,
Evaldo Braga,
Foucault,
Vigiar e Punir
Da série: "A vida como não é nas novelas"... Capítulo IV
Capítulo IV:
Inconformado, Uélito desabafa para De Lourdes:
- "A memória, esta sim, fragmentada, descontinuada, diversas vezes reconstruída pelos nossos interesses".
- Pierre-Jeudy? Appadurai? Artières? Bergson? Hartog? Le Goff? Ricœur?! - pergunta De Lourdes insistentemente.
- Não, quem falou foi o Seu Zé Wilso, bodegueiro lá do Pirambu. Ele ganhou a milhar no jogo do bicho e esqueceu de ir lá na Heráclito Graça retirar o prêmio.
Toca a trilha sonora:
Inconformado, Uélito desabafa para De Lourdes:
- "A memória, esta sim, fragmentada, descontinuada, diversas vezes reconstruída pelos nossos interesses".
- Pierre-Jeudy? Appadurai? Artières? Bergson? Hartog? Le Goff? Ricœur?! - pergunta De Lourdes insistentemente.
- Não, quem falou foi o Seu Zé Wilso, bodegueiro lá do Pirambu. Ele ganhou a milhar no jogo do bicho e esqueceu de ir lá na Heráclito Graça retirar o prêmio.
Toca a trilha sonora:
Marcadores:
A vida como não é nas novelas,
Babau do Pandeiro
Da série: "A vida como não é nas novelas"... Capítulo III
Capítulo III:
Enquanto isso, no núcleo burguês da novela, Mascarenhas joga biriba com Noronha no Ideal Clube.
- Dada a situação como está, acho que só a Social Democracia salva este País. Agora o negro, não obstante ser pobre, poderá frequentar a universidade pública, uma afronta ao estado democrático de direito. Valete de copas.
- A qual social democracia você se refere, o PSDB? Oito de paus.
- Não, falo social democracia de verdade. Às de espadas. Bati.
Depois de um gole no bourbon Mascarenhas continua.
- Égua. Chamar o PSDB de Social Democracia é como dizer que só tem socialista no PSB...
Toca a trilha sonora:
Enquanto isso, no núcleo burguês da novela, Mascarenhas joga biriba com Noronha no Ideal Clube.
- Dada a situação como está, acho que só a Social Democracia salva este País. Agora o negro, não obstante ser pobre, poderá frequentar a universidade pública, uma afronta ao estado democrático de direito. Valete de copas.
- A qual social democracia você se refere, o PSDB? Oito de paus.
- Não, falo social democracia de verdade. Às de espadas. Bati.
Depois de um gole no bourbon Mascarenhas continua.
- Égua. Chamar o PSDB de Social Democracia é como dizer que só tem socialista no PSB...
Toca a trilha sonora:
Marcadores:
A vida como não é nas novelas,
FHC
Da série: "A vida como não é nas novelas"... Capítulo II
Capítulo II:
Mazé afirma para Chico Leite que Jean Baudrillard entende que todo objeto tem duas funções: uma que é a de ser utilizado, a outra a de ser possuído. A primeira depende do campo de totalização prática do mundo pelo indivíduo, a outra um empreendimento de totalização abstrata realizada pelo indivíduo sem a participação do mundo. Estas duas funções acham-se em razão inversa uma da outra. Chico Leite aponta que, em última instância, o objeto estritamente prático toma o estatuto social: é a máquina. Ao contrário, o objeto puro, privado de função ou abstraído de seu uso, toma um estatuto estritamente subjetivo: torna-se objeto de coleção.
- Ei, rachada, é por isso que o Hemetério fica guardando aquelas calcinha véa pôdi no armário, é? O quarto dele é uma inhaca de chibiu desgraçada...
- Macho, segundo Freud, isso é uma fase anal mal resolvida. Isto explicaria seu ímpeto colecionista.
Toca a trilha sonora:
Mazé afirma para Chico Leite que Jean Baudrillard entende que todo objeto tem duas funções: uma que é a de ser utilizado, a outra a de ser possuído. A primeira depende do campo de totalização prática do mundo pelo indivíduo, a outra um empreendimento de totalização abstrata realizada pelo indivíduo sem a participação do mundo. Estas duas funções acham-se em razão inversa uma da outra. Chico Leite aponta que, em última instância, o objeto estritamente prático toma o estatuto social: é a máquina. Ao contrário, o objeto puro, privado de função ou abstraído de seu uso, toma um estatuto estritamente subjetivo: torna-se objeto de coleção.
- Ei, rachada, é por isso que o Hemetério fica guardando aquelas calcinha véa pôdi no armário, é? O quarto dele é uma inhaca de chibiu desgraçada...
- Macho, segundo Freud, isso é uma fase anal mal resolvida. Isto explicaria seu ímpeto colecionista.
Toca a trilha sonora:
Marcadores:
A vida como não é nas novelas,
Wando
Da série: "A vida como não é nas novelas"... Capítulo I
Capítulo I:
Chaguinha conta a Das Dores que, segundo Sartre, o amante ambiciona possuir a pessoa amada como sujeito, não como objeto, coisa, julgando assim dominar a essência do outro ao mesmo tempo que recupera sua subjetividade, o eu que o outro lhe roubara. Igualmente deseja ser amado como sujeito. Das Dores retruca colocando que, desta forma, o amor exigiria que ambos, possuidor e possuído, sejam sujeitos. Mas isso é impossível, pois que para que assim fosse, o eu teria de se identificar com o outro, o que seria um absurdo, já que teríamos de admitir em um único ser dois corpos diferentes.
Malgrado seu intento, o amante sofre.
- Viu, mulher? É por isso que o Zé Wilso fica escutando música de corno toda vez que lembra das chelbras nas costas nuas da Francicleide.
Toca a trilha sonora:
Chaguinha conta a Das Dores que, segundo Sartre, o amante ambiciona possuir a pessoa amada como sujeito, não como objeto, coisa, julgando assim dominar a essência do outro ao mesmo tempo que recupera sua subjetividade, o eu que o outro lhe roubara. Igualmente deseja ser amado como sujeito. Das Dores retruca colocando que, desta forma, o amor exigiria que ambos, possuidor e possuído, sejam sujeitos. Mas isso é impossível, pois que para que assim fosse, o eu teria de se identificar com o outro, o que seria um absurdo, já que teríamos de admitir em um único ser dois corpos diferentes.
Malgrado seu intento, o amante sofre.
- Viu, mulher? É por isso que o Zé Wilso fica escutando música de corno toda vez que lembra das chelbras nas costas nuas da Francicleide.
Toca a trilha sonora:
Marcadores:
A vida como não é nas novelas,
Bartô Galeno
Dicionário Ilustrado de Contos da Contemporaneidade. Verbete: IRMÃOS.
Verbete: IRMÃOS.
Certa feita perguntaram a Patrick Patterson, 31 anos, porque ele só falava com os irmãos quando voltava à sua cidade natal para as festas de fim de ano.
- Convivi diariamente com meus irmãos durante dois terços de minha vida. Estamos meio sem assunto.
- Então porque você liga semanalmente para sua mãe, também não a via diariamente?
- Em minha primeira e segunda infâncias ela estava estressada demais para conversarmos. Aparentemente tem a ver com algo relacionado a algumas mordidas, uma cristaleira quebrada e uns xixis na cama vez em quando. Na minha adolescência ela estava ocupada demais trabalhando. Então digamos que temos um hiato grande em nossos diálogos. Há muito o que conversar.
- E sobre o que você e seus irmãos conversam no Natal?
- Ah, não conversamos muito. Há o peru, as mesmas histórias do tio bêbado e outros rituais natalinos que não nos deixam muito tempo para conversar. Além disto, estamos ganhando um pouco de tempo. Capaz de termos algum assunto para conversar daqui há uns quinze anos.
Certa feita perguntaram a Patrick Patterson, 31 anos, porque ele só falava com os irmãos quando voltava à sua cidade natal para as festas de fim de ano.
- Convivi diariamente com meus irmãos durante dois terços de minha vida. Estamos meio sem assunto.
- Então porque você liga semanalmente para sua mãe, também não a via diariamente?
- Em minha primeira e segunda infâncias ela estava estressada demais para conversarmos. Aparentemente tem a ver com algo relacionado a algumas mordidas, uma cristaleira quebrada e uns xixis na cama vez em quando. Na minha adolescência ela estava ocupada demais trabalhando. Então digamos que temos um hiato grande em nossos diálogos. Há muito o que conversar.
- E sobre o que você e seus irmãos conversam no Natal?
- Ah, não conversamos muito. Há o peru, as mesmas histórias do tio bêbado e outros rituais natalinos que não nos deixam muito tempo para conversar. Além disto, estamos ganhando um pouco de tempo. Capaz de termos algum assunto para conversar daqui há uns quinze anos.
segunda-feira, 10 de junho de 2013
Dicionário Ilustrado de Contos da Contemporaneidade. Verbete: POLÍTICA.
Verbete: POLÍTICA.
Pedro Aguiar Tavares foi chamado certa vez para um programa matinal de culinária voltado para donas de casa. O velho comunista fazia suas conhecidas metáforas enquanto cozinhava.
- Há quem sustente que o orégano não vai bem com salsicha, porque é fritura e não combina. Mas é o tipo de prato que você só vê com quem tem compromisso com o social, quem consegue pensar a realidade para além de sua janela de apartamento no bairro do Jockey Clube, em Teresina-PI. Marilena Chauí, José de Abreu, Pedro de Lara e Glória Peres.
Intrigado, o fantoche de papagaio da apresentadora perguntou:
- E um polengui no pão antes de finalizar, cai bem, Pedro?
- Polengui?! Olha, eu vou pedir desculpas a você, e não quero ser mal interpretado, mas é que esse seu comentário me lembrou um versinho que debatíamos na Quarta Internacional: "O velho comunista se aliançou / Ao rubro do rubor do meu amor / O brilho do meu canto tem o tom / E a expressão da minha cor". Quem canta "Vermelho" da banda Carrapicho sem emoção no coração, sem levar em consideração as questões étnicas e de classe envolvidas não passa de um facínora iconoclasta que quer à fina força impor sua ideologia burguesa no nosso país tão ferido pela intensa desigualdade social. E aposto que o polengui em questão é "light". O que nos remete à tentativa cruel de impor um padrão de beleza para as pessoas. Adib Jatene, Miguel Falabella, Pimenta da Veiga e Maílson da Nóbrega.
Diz-se que nunca mais Pedro Aguiar Tavares foi chamado a nenhum programa de TV. Alguns afirmam que é uma estratégia da mídia burguesa para não dar espaço a um dos grandes intelectuais de nosso tempo. Outros dizem que o velho comunista é meio insosso nos meios de comunicação.
Pedro Aguiar Tavares foi chamado certa vez para um programa matinal de culinária voltado para donas de casa. O velho comunista fazia suas conhecidas metáforas enquanto cozinhava.
- Há quem sustente que o orégano não vai bem com salsicha, porque é fritura e não combina. Mas é o tipo de prato que você só vê com quem tem compromisso com o social, quem consegue pensar a realidade para além de sua janela de apartamento no bairro do Jockey Clube, em Teresina-PI. Marilena Chauí, José de Abreu, Pedro de Lara e Glória Peres.
Intrigado, o fantoche de papagaio da apresentadora perguntou:
- E um polengui no pão antes de finalizar, cai bem, Pedro?
- Polengui?! Olha, eu vou pedir desculpas a você, e não quero ser mal interpretado, mas é que esse seu comentário me lembrou um versinho que debatíamos na Quarta Internacional: "O velho comunista se aliançou / Ao rubro do rubor do meu amor / O brilho do meu canto tem o tom / E a expressão da minha cor". Quem canta "Vermelho" da banda Carrapicho sem emoção no coração, sem levar em consideração as questões étnicas e de classe envolvidas não passa de um facínora iconoclasta que quer à fina força impor sua ideologia burguesa no nosso país tão ferido pela intensa desigualdade social. E aposto que o polengui em questão é "light". O que nos remete à tentativa cruel de impor um padrão de beleza para as pessoas. Adib Jatene, Miguel Falabella, Pimenta da Veiga e Maílson da Nóbrega.
Diz-se que nunca mais Pedro Aguiar Tavares foi chamado a nenhum programa de TV. Alguns afirmam que é uma estratégia da mídia burguesa para não dar espaço a um dos grandes intelectuais de nosso tempo. Outros dizem que o velho comunista é meio insosso nos meios de comunicação.
City/Cité/Cidade – Augusto de Campos
Atrocaducapacaustiduplielastifeliferofugahistoriloqualubrimendimultiplicorganiperiodiplastirapareciprorustisagasimplitenaveloveravivaunivoracidade.
São dois que dançam
uma dança de olhares
pra lá e pra cá
uma valsa estranha
desvia o olho
mira o copo
deseja o corpo
cabelo, sorriso, cangote
dente, ombros, decote
pernas se batem
pernas se colam
São dois que dançam
uma estranha valsa
as mãos se tocam
se entrelaçam
se aconchegam
as coxas se amontoam
os olhares sorriem.
[Fortaleza, março de 2013.]
Amana a água
De teu sumo
Que escorre
E me entorpece
Me cobre e me veste
No calor do ventre
Amana a água
Um licor
Que me enrijece
Me enlaceia
E me enlouquece
Me alimenta
E me sufoca
Amana água
Do teu peito
Sal e fruta
Bicho, pêlo
Pele
Abunda
Pé e cabelo
Dorso e unha
Amana a água
Meu maná
Dá de comer
De teu ventre
Deixa que eu entre
E me esvazie
E te encha
E te aporrinhe
Me larga solto
Bicho vadio
Amana água
Minha
molhe a boca
Tua
Barba, bafo
Morde a nuca
Nua pele faz tremer
Amana água
Toda anágua
Se desveste
E desabotoa
A gruta
Quente
Lábios toma
E me fere
E me faz
Querer.
[Fortaleza, janeiro de 2013.]
De teu sumo
Que escorre
E me entorpece
Me cobre e me veste
No calor do ventre
Amana a água
Um licor
Que me enrijece
Me enlaceia
E me enlouquece
Me alimenta
E me sufoca
Amana água
Do teu peito
Sal e fruta
Bicho, pêlo
Pele
Abunda
Pé e cabelo
Dorso e unha
Amana a água
Meu maná
Dá de comer
De teu ventre
Deixa que eu entre
E me esvazie
E te encha
E te aporrinhe
Me larga solto
Bicho vadio
Amana água
Minha
molhe a boca
Tua
Barba, bafo
Morde a nuca
Nua pele faz tremer
Amana água
Toda anágua
Se desveste
E desabotoa
A gruta
Quente
Lábios toma
E me fere
E me faz
Querer.
[Fortaleza, janeiro de 2013.]
Ode ao Degredado
[Esta eu compus especialmente para um encontro muito especial de amigos que, entre outras coisas em comum, todos estavam ou tinham estado na condição de "degredados", expulsos de nossa terra pela falta de oportunidades profissionais, cumprindo a pena por ousar demais, mas levando sempre o desejo de voltar e ajudar a construir uma outra situação.]
O caba que sai da sua terra
atrás de um trabalho pra sobreviver
A gata que entra na onda
e vive da bolsa CNPq
Humanas pessoas que migram
todos os anos pra fora daqui
Talentos que sempre perdemos
rebentos atentos mal tem pr'onde ir
Sou degredado eu sou
Vou, vou pra longe vou
Mas, negada, pode me esperar
Um dia eu volto pras banda de cá
Descobrem_a solidariedade
em outras cidades no sul do país
Recorrem a amigos de amigos,
cunhados e primos, irmãos do vizim.
Encaram adversidades,
universidades, empresas, concursos
Suspeitam que a vivacidade
se vai com a idade, a distância e o percurso
Sou degredado eu sou
Vou, vou pra longe vou
Mas, negada, pode me esperar
Um dia eu volto pras banda de cá
Vencem a discriminação
pelo fenótipo atípico e a testa espraiada
Integram o alto escalão
de bares, empresas, e salas de aula
No fundo, cada um de nós
alimenta a esperança de um dia voltar
Pra gozar do abraço e do afeto,
putaria e dos ventos do nosso Ceará.
[Da esquerda para a esquerda (pra direita é o carái!) passando pelo centro: Gyl Giffony (o Bertolt Brecht do Benfica), Rodrigo Vieira (o Rui Barbosa da P.I.), M. Platini Fernandes (o Gustavo Barroso do Pirambu) e Natan Garcia (o Cartier-Bresson da Praia de Iracema). Só a nata do luxo do lixo da aldeia alencarina... Bar do Arlindo, Fortaleza, 26 de dezembro de 2012.]
Vinte e 7
[Esta eu lembro de ter feito para uma paquera que depois virou namoro. Ela tinha vinte e 7 anos quando eu tinha vinte e 2.]
Eu não sei
Não tenho todas as respostas
Se eu não gostasse de vc
Diria exatamente o que vc deve fazer
Além do mais eu não tenho muita experiência
Com a sua própria vida
E quem a tem?
O que vc quer que eu saiba?
O que vc quer que eu decida?
Se eu ainda nem tenho vinte e 7?
O que eu sei da vida?
O que sei das pessoas?
O que sei da teoria do black hole de Stephen Howkin
Ou de teflon para frigideira?
O que sei se nem ensaiei os 23?
Mundinho estranho esse
Complicadas pessoas
Passamos parte da infância brincando
Por exigência da UNICEF
Parte da infância aprendendo a ser adolescente
Quando o somos, ainda não sabemos nada
Passamos a juventude nos preparando
Para entrar no mercado
Para sermos vendidos em prateleiras
Para trocar nosso suor por dinheiros
Encher os bolsos deles
E poder ir ao mercado e comprar coisas
Que não vão nos fazer felizes
Para sentar numa cadeira de mogno
Na varanda enjaulada de apartamento
E rirmo-nos de nossa própria miséria
E esperar os rendimentos do plano de aposentadoria privada
Mundinho complicado esse
Pessoas estranhas
O que eu sei da vida das pessoas?
O que sei das pessoas vivas?
O que sei da frigideira do grupo Shop Imagem?
Ou da teoria do mercado?
O que sei se nem ensaiei os 23?
Ontem foi vinte e 7
Você ainda vai me ver sorrir
[Poema que depois virou música. Devo ter feito pelos idos de 2003 ou 2004.]
Você ainda vai me ver sorrir
Depois de tudo o que aconteceu
Depois de tantas noites vazias
Regadas a vinho e lágrimas
Você ainda vai se arrepender
Por ter dito aquelas coisas
Você vai se lamentar quando ver
Que eu dei a volta por cima
Era tão fácil ver
Mas impossível acreditar
Que isso iria acontecer
Que você ia escarrar
Em todos os nossos planos
Juntos não podemos mais
Nem olhar um pro outro
Foi de tal maneira que
Nem te odeio por isso
Mas eu ainda vou gargalhar
Quando você chorar
Quando você ver
Que eu chorei sem lamentar
Quero que você saiba
Baby, eu dei a volta por cima
Você ainda vai me ver sorrir.
Você ainda vai me ver sorrir
Depois de tudo o que aconteceu
Depois de tantas noites vazias
Regadas a vinho e lágrimas
Você ainda vai se arrepender
Por ter dito aquelas coisas
Você vai se lamentar quando ver
Que eu dei a volta por cima
Era tão fácil ver
Mas impossível acreditar
Que isso iria acontecer
Que você ia escarrar
Em todos os nossos planos
Juntos não podemos mais
Nem olhar um pro outro
Foi de tal maneira que
Nem te odeio por isso
Mas eu ainda vou gargalhar
Quando você chorar
Quando você ver
Que eu chorei sem lamentar
Quero que você saiba
Baby, eu dei a volta por cima
Você ainda vai me ver sorrir.
Aleluia. Por Luis Fernando Veríssimo.
O Super-Homem se fantasia de Clark Kent. Isto é muito importante. Eu sei que você ainda está de ressaca, mas preste atenção que isto é importante. O Super-Homem "sai" de Clark Kent como você sai de tirolês estilizado, entende? Acorda, pô! O dia-a-dia do Super-Homem é o seu carnaval. É quando ele se solta. A rotina da redação, o cafezinho com Lois Lane no bar da esquina, as preocupações com salário e tempo de serviço, o aluguel do apartamento, a lavanderia, o trânsito. Enfim, as vicissitudes. Esta é a fantasia do Super-Homem. Você está concordando comigo ou está roncando? O Super-Homem voando, lutando contra o mal, de malha azul justa no corpo, é um aborrecido. Não vê a hora de vestir o seu Clark Kent e cair na folia do cotidiano. Garçom, traz outra Brahma. Pode ser da Antarctica.
Agora, imagina o seguinte: você é um tirolês estilizado que se fantasia de técnico em contabilidade. O que você realmente é é um tirolês estilizado. Podia constar no seu título de eleitor: Fulano de Tal, Tirolês Estilizado.
— O que é que o seu marido faz?
— É um Tirolês Estilizado.
Quem pode assegurar que o Clóvis Bornay não era uma ave-do-paraíso fantasiada de cidadão? Digamos que a ave tivesse um nome. Kraktundá, o Pássaro Místico do Himalaia, ou coisa parecida. O seu disfarce era o Clóvis Bornay. Ou o Evandro Castro Lima, o Mauro Rosas, o Jésus, qualquer um. Você está prestando atenção? Mexe com a orelha se a resposta for sim.
Bom. Kraktundá, o Pássaro Místico do Himalaia, concorre num concurso de fantasia para o ano inteiro, realizado no mês mais anticar-navalesco que você possa imaginar. Em agosto, por exemplo. Imagina.
— A seguir, Kraktundá e a sua fantasia de Cidadão. Os sapatos são de couro sintético. Notem o detalhe das meias combinando com a gravata e a originalidade do lenço brotando do bolso do paletó. Óculos de aros pretos. O cinto é afivelado na frente. A camisa tem mangas que acompanham os braços até os punhos, presos com abotaduras. No bolso de trás, realçando a autenticidade da fantasia — que Kraktundá confeccionou depois de estudar a fundo várias lendas do Cidadão —, há uma carteira de couro natural com uma reluzente cédula de identidade e vários cartões coloridos de crédito. No bolso interno do paletó, uma lapiseira em imitação de ouro, um talão do estacionamento, um talão de cheques verde-desmaiado com letras impressas em preto. O chaveiro é de metal autêntico e as chaves realmente funcionam.
Entende? O Cidadão é a fantasia que a ave-do-paraíso só tira no carnaval. Hans, Tirolês Estilizado de quinta categoria, concorre com a sua fantasia de técnico contábil de ressaca dormindo na mesa de um bar em plena Aleluia. Categoria pouca originalidade. Aquele centurião romano ali sai o ano inteiro de Vendedor de Enciclopédia.
— Notem o detalhe da pasta executive preta e o ar de falsa sinceridade. O isqueiro é de verdade.
— A seguir, Maku, Guerreiro Havaiano, na sua original fantasia de Gari da Prefeitura.
— A Favorita do Sultão concorre este ano com Idalina, Comerciária do Méier.
O Cacique de Ramos é uma tribo selvagem que passa todo o ano disfarçando as suas verdadeiras intenções, que são a de acabar com a civilização como nós a conhecemos, oba. Um dia o Cacique de Ramos vai sair e não vai mais voltar. Vai invadir a cidade. A polícia não conseguirá contê-lo. Todas as forças de segurança serão derrotadas a tamancadas. Finalmente, o governo convocará a única força organizada capaz de deter o expansionismo de Ramos: o Bafo da Onça. Mas será tarde demais. O Cacique terá triunfado e dominará as instituições. O carnaval continuará por todo o ano, ninguém mais precisará vestir a sua fantasia de cidadão. Eu serei Príncipe Hindu por toda a vida!
Acordou, malandro? O você fantasiado de garçom, traz mais uma cerveja aqui. O Cacique de Ramos fica cada vez maior, certo? Daqui a dois, três anos, bastará o Cacique se reunir para interromper o trânsito até São Paulo. Não haverá espaço para os aviões pousarem. Os serviços essenciais entrarão em colapso. O governo se renderá. O carnaval, aí sim, tomará conta da cidade. Os reis tomarão o Poder, as odaliscas ocuparão seus haréns, todos os piratas zarparão, xerifes garantirão a ordem, verdu-gos dispensarão justiça, deusas gregas cuidarão dos ritos e escravos etíopes cavarão o metrô. E as aves-do-paraíso percorrerão os jardins com sua empáfia e suas plumas, livres para sempre das suas ridículas fantasias humanas. E você, é claro, vai poder seguir a sua vocação de tirolês estilizado. Hein? Hein? Acorda, pô!
VERÍSSIMO, Luis Fernando. Aleluia. In: ______. Orgias. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005. p. 89-91.
Agora, imagina o seguinte: você é um tirolês estilizado que se fantasia de técnico em contabilidade. O que você realmente é é um tirolês estilizado. Podia constar no seu título de eleitor: Fulano de Tal, Tirolês Estilizado.
— O que é que o seu marido faz?
— É um Tirolês Estilizado.
Quem pode assegurar que o Clóvis Bornay não era uma ave-do-paraíso fantasiada de cidadão? Digamos que a ave tivesse um nome. Kraktundá, o Pássaro Místico do Himalaia, ou coisa parecida. O seu disfarce era o Clóvis Bornay. Ou o Evandro Castro Lima, o Mauro Rosas, o Jésus, qualquer um. Você está prestando atenção? Mexe com a orelha se a resposta for sim.
Bom. Kraktundá, o Pássaro Místico do Himalaia, concorre num concurso de fantasia para o ano inteiro, realizado no mês mais anticar-navalesco que você possa imaginar. Em agosto, por exemplo. Imagina.
— A seguir, Kraktundá e a sua fantasia de Cidadão. Os sapatos são de couro sintético. Notem o detalhe das meias combinando com a gravata e a originalidade do lenço brotando do bolso do paletó. Óculos de aros pretos. O cinto é afivelado na frente. A camisa tem mangas que acompanham os braços até os punhos, presos com abotaduras. No bolso de trás, realçando a autenticidade da fantasia — que Kraktundá confeccionou depois de estudar a fundo várias lendas do Cidadão —, há uma carteira de couro natural com uma reluzente cédula de identidade e vários cartões coloridos de crédito. No bolso interno do paletó, uma lapiseira em imitação de ouro, um talão do estacionamento, um talão de cheques verde-desmaiado com letras impressas em preto. O chaveiro é de metal autêntico e as chaves realmente funcionam.
Entende? O Cidadão é a fantasia que a ave-do-paraíso só tira no carnaval. Hans, Tirolês Estilizado de quinta categoria, concorre com a sua fantasia de técnico contábil de ressaca dormindo na mesa de um bar em plena Aleluia. Categoria pouca originalidade. Aquele centurião romano ali sai o ano inteiro de Vendedor de Enciclopédia.
— Notem o detalhe da pasta executive preta e o ar de falsa sinceridade. O isqueiro é de verdade.
— A seguir, Maku, Guerreiro Havaiano, na sua original fantasia de Gari da Prefeitura.
— A Favorita do Sultão concorre este ano com Idalina, Comerciária do Méier.
O Cacique de Ramos é uma tribo selvagem que passa todo o ano disfarçando as suas verdadeiras intenções, que são a de acabar com a civilização como nós a conhecemos, oba. Um dia o Cacique de Ramos vai sair e não vai mais voltar. Vai invadir a cidade. A polícia não conseguirá contê-lo. Todas as forças de segurança serão derrotadas a tamancadas. Finalmente, o governo convocará a única força organizada capaz de deter o expansionismo de Ramos: o Bafo da Onça. Mas será tarde demais. O Cacique terá triunfado e dominará as instituições. O carnaval continuará por todo o ano, ninguém mais precisará vestir a sua fantasia de cidadão. Eu serei Príncipe Hindu por toda a vida!
Acordou, malandro? O você fantasiado de garçom, traz mais uma cerveja aqui. O Cacique de Ramos fica cada vez maior, certo? Daqui a dois, três anos, bastará o Cacique se reunir para interromper o trânsito até São Paulo. Não haverá espaço para os aviões pousarem. Os serviços essenciais entrarão em colapso. O governo se renderá. O carnaval, aí sim, tomará conta da cidade. Os reis tomarão o Poder, as odaliscas ocuparão seus haréns, todos os piratas zarparão, xerifes garantirão a ordem, verdu-gos dispensarão justiça, deusas gregas cuidarão dos ritos e escravos etíopes cavarão o metrô. E as aves-do-paraíso percorrerão os jardins com sua empáfia e suas plumas, livres para sempre das suas ridículas fantasias humanas. E você, é claro, vai poder seguir a sua vocação de tirolês estilizado. Hein? Hein? Acorda, pô!
VERÍSSIMO, Luis Fernando. Aleluia. In: ______. Orgias. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005. p. 89-91.
Da importância de ser Fabião. Por Luis Fernando Veríssimo.
Acordaram o Luiz Pedro às três da manhã.
— Vem pra cá, rapaz.
— Hein?
— Pula da cama e vem pra cá.
O Luiz Pedro zonzo. Ruídos de festa no telefone. Música. Uma voz de mulher gritando "Com o meu batom não!".
— Quem fala?
— Te manda pra cá!
— Olha eu...
— Sabe o que que o maluco do Pepe está fazendo? Pintando o... Ó Pepe, fala aqui com o Fabião. Diz pra ele vir pra cá.
Outra voz no telefone:
— Fabião?
— Não eu...
— Quero te informar que acabei de pintar o meu pênis de, deixa ver, ocre provençal. É mole?
— É engano.
— Cê vem pra cá ou não vem? Haroldinho, o Fabião sabe o endereço? Hein? Fala aqui com ele.
— Fabião?
— Não. Meu nome é...
— Sabe o posto de gasolina na esquina da rua do Vavá? É o edifício ao lado. Número, número... Rita. Vem cá. Você não é a Rita? Que número é aqui? Fala aqui com o Fabião. Olha, Fabião, você vai falar com a mulher mais gostosa da festa. Ela vai te dar o endereço. Um beijo, cara. Vem logo.
— Olha, você ligou o número errado, eu...
— Oi.
— Oi, Rita. Eu...
— Eu não sou Rita. Sou Malu. Você quer o número?
— Não, eu estou tentando...
— Posso dizer?
— ... dizer que ligaram para o número errado daí!
— Noventa e seis, apartamento 32. Terceiro andar.
— Eu não sou o Fabião.
— Quem é o Fabião?
— Não sei. Eu não sou. Meu nome é Luiz Pedro.
— Certo. Anotou o número? Vem logo, Luiz Pedro. Eu gostei da sua voz.
— Eu... Gostou?
— Hmmm. Estou te esperando.
— Posso falar com o... o Haroldinho?
— Quem?
— O que te passou o telefone.
— Certo. Haroldinho! O Luiz Pedro quer falar contigo. Tchau, Luizinho. Não demora, viu?
Voz do Haroldinho:
— Que história é essa de Luiz Pedro, Fabião?
— Nada, não. Só me diz uma coisa. A rua do Vavá qual é, mesmo?
— Está brincando comigo, Fabião? Vem logo pra cá. E Haroldinho desligou o telefone.
Luiz Pedro ficou pensando na cama, com o telefone em cima do peito. Lamentando que sua vida era como era. Lamentando todas as oportunidades que tinham aparecido para mudar sua vida, e que ele tinha deixado escapar. Lamentando o fim do namoro com a Suelen, só porque ela citava trechos inteiros do Paulo Coelho de cor.
Lamentando, acima de tudo, não conhecer o Vavá.
VERÍSSIMO, Luis Fernando. Da importância de ser Fabião. In: ______. Orgias. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005. p. 39-41.
— Vem pra cá, rapaz.
— Hein?
— Pula da cama e vem pra cá.
O Luiz Pedro zonzo. Ruídos de festa no telefone. Música. Uma voz de mulher gritando "Com o meu batom não!".
— Quem fala?
— Te manda pra cá!
— Olha eu...
— Sabe o que que o maluco do Pepe está fazendo? Pintando o... Ó Pepe, fala aqui com o Fabião. Diz pra ele vir pra cá.
Outra voz no telefone:
— Fabião?
— Não eu...
— Quero te informar que acabei de pintar o meu pênis de, deixa ver, ocre provençal. É mole?
— É engano.
— Cê vem pra cá ou não vem? Haroldinho, o Fabião sabe o endereço? Hein? Fala aqui com ele.
— Fabião?
— Não. Meu nome é...
— Sabe o posto de gasolina na esquina da rua do Vavá? É o edifício ao lado. Número, número... Rita. Vem cá. Você não é a Rita? Que número é aqui? Fala aqui com o Fabião. Olha, Fabião, você vai falar com a mulher mais gostosa da festa. Ela vai te dar o endereço. Um beijo, cara. Vem logo.
— Olha, você ligou o número errado, eu...
— Oi.
— Oi, Rita. Eu...
— Eu não sou Rita. Sou Malu. Você quer o número?
— Não, eu estou tentando...
— Posso dizer?
— ... dizer que ligaram para o número errado daí!
— Noventa e seis, apartamento 32. Terceiro andar.
— Eu não sou o Fabião.
— Quem é o Fabião?
— Não sei. Eu não sou. Meu nome é Luiz Pedro.
— Certo. Anotou o número? Vem logo, Luiz Pedro. Eu gostei da sua voz.
— Eu... Gostou?
— Hmmm. Estou te esperando.
— Posso falar com o... o Haroldinho?
— Quem?
— O que te passou o telefone.
— Certo. Haroldinho! O Luiz Pedro quer falar contigo. Tchau, Luizinho. Não demora, viu?
Voz do Haroldinho:
— Que história é essa de Luiz Pedro, Fabião?
— Nada, não. Só me diz uma coisa. A rua do Vavá qual é, mesmo?
— Está brincando comigo, Fabião? Vem logo pra cá. E Haroldinho desligou o telefone.
Luiz Pedro ficou pensando na cama, com o telefone em cima do peito. Lamentando que sua vida era como era. Lamentando todas as oportunidades que tinham aparecido para mudar sua vida, e que ele tinha deixado escapar. Lamentando o fim do namoro com a Suelen, só porque ela citava trechos inteiros do Paulo Coelho de cor.
Lamentando, acima de tudo, não conhecer o Vavá.
VERÍSSIMO, Luis Fernando. Da importância de ser Fabião. In: ______. Orgias. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005. p. 39-41.
Pagode. Por Luis Fernando Veríssimo.
Com a proximidade do carnaval, o pagode da Djalmira tem enchido de gente. Haja feijoada. Aliás, a Djalmira talvez mude o esquema de feijoada e samba. Como ela mesmo diz, "estou repensando a proposta". No outro dia, por exemplo, acabou a feijoada e ficou todo mundo sentado em volta da mesa comprida no quintal, ronronando. Em vez de samba só se ouvia a lamentação da Salete que, como sempre, tinha abusado da cerveja. Salete, todos sabem, é a viúva do Nelson Porém. Estava contando a história do falecido pela centésima vez, só este ano. De como todo mundo lembra o Nelson Cavaquinho e o Nelson Sargento mas ninguém lembra o Nelson Porém, um dos caras mais importantes da história da música popular brasileira, seu esposo. Nelson Porém estava na mesa ao lado quando o Paulinho da Viola compôs o samba sobre a Portela que tem aquela parte que começa "Porém...". Depois do "porém" tinha um vazio que o Paulinho não sabia como encher. Paulinho tinha empacado no "porém". Foi aí que da mesa ao lado, quando o Paulinho cantou "Porém...", o Nelson, seu esposo, mais
pra lá do que pra cá, lascou "Ai, porém!" e foi aquele sucesso. O Paulinho incluiu o "Ai, porém" do Nelson no samba e ele estava feito. Só que não pôde desenvolver seu talento de letrista. "Ai, porém" foi a única letra da vida dele. Como vivia mais pra lá do que pra cá, um dia ficou lá. Morreu.
— Até hoje não posso ouvir alguém dizer "porém" que eu choro — disse a Salete. — Às vezes alguém diz "mas" e eu já me desmancho.
Foi quando o seu Cosme resolveu mudar de assunto.
— Grande feijoada, Djalmira.
— Obrigada, seu Cosme.
— Aliás, como sempre.
— Quié isso, seu Cosme. É um prazer reunir a fina flor do samba no meu quintal. O Ari Sem Braço, o Tavinho Meio Braço, o Neco Dois Braço... E o seu Cosme Sete Cordas. Eu só alimento fera.
— Estava tudo bom, dona Djalmira. Desde o começo. Não é pessoal?
Todo mundo em volta da mesa fez "mmm" em uníssono.
— O limãozinho esperto... Os tira-gosto... Os torresminho... E o feijão, minha gente?
— Mmmm!
— Vocês merecem, vocês merecem. E como é? Vai sair um samba?
— Vai, vai. Cadê meu violão?
Seu Cosme olhou em volta sem muito entusiasmo. Depois gritou para o Ximbé.
— Trouxe o agogô, Ximbé? Acorda, Ximbé! Pega o agogô. Sem Braço, o tamborim...
Os outros começaram a se organizar para tocar. Lentamente. Seu Cosme continuou:
— Que feijoada, Djalmira. O que é que tinha no feijão?
— O de sempre, né, seu Cosme.
— Recapitule, pra acordar o pessoal.
— Lingüicinha... paio... costelinha salgada... costelinha de porco... rabinho de porco...
— Mmmm...
— Dê uma passada nas farofas... — pediu seu Cosme, de olhos fechados.
— Farofa com passas... farofa com ovo... farofa com toucinho...
— Mmmm...
— E a couve, gente?
— Mmmm!
— ... a laranja?
— Mmmmm!
— E pra pimenta, nada?
— Mmmmm!
— Obrigada, pessoal. Vocês merecem. Cume, vamo ouvi um pouco de música, seu Cosme?
— Vamos lá. Ximbé, o agogô. Cadê o agogô, Ximbé?
O Ximbé estava dormindo com a cabeça nos braços, sobre a mesa.
— Alguém aí, procura o agogô do Ximbé — bocejou o seu Cosme. — E o meu violão.
— Vamos lá. "No pagode da Djalmira..." Cumé, pessoal? Mas o seu Cosme tinha desistido, depois de examinar suas tropas.
— Desculpe, Djalmira, não vai dar. Sem o agogô do Ximbé, não dá.
Depois inclinou-se para a Djalmira e perguntou:
— Tem certeza que o agogô do Ximbé não entrou no feijão?
Foi então que a Djalmira decidiu. A partir dali, primeiro o samba, depois a feijoada. Durante muito tempo se ouviu em volta da mesa as lamentações da Salete. E os roncos.
VERÍSSIMO, Luis Fernando. Pagode. In: ______. Orgias. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005. p. 43-45.
pra lá do que pra cá, lascou "Ai, porém!" e foi aquele sucesso. O Paulinho incluiu o "Ai, porém" do Nelson no samba e ele estava feito. Só que não pôde desenvolver seu talento de letrista. "Ai, porém" foi a única letra da vida dele. Como vivia mais pra lá do que pra cá, um dia ficou lá. Morreu.
— Até hoje não posso ouvir alguém dizer "porém" que eu choro — disse a Salete. — Às vezes alguém diz "mas" e eu já me desmancho.
Foi quando o seu Cosme resolveu mudar de assunto.
— Grande feijoada, Djalmira.
— Obrigada, seu Cosme.
— Aliás, como sempre.
— Quié isso, seu Cosme. É um prazer reunir a fina flor do samba no meu quintal. O Ari Sem Braço, o Tavinho Meio Braço, o Neco Dois Braço... E o seu Cosme Sete Cordas. Eu só alimento fera.
— Estava tudo bom, dona Djalmira. Desde o começo. Não é pessoal?
Todo mundo em volta da mesa fez "mmm" em uníssono.
— O limãozinho esperto... Os tira-gosto... Os torresminho... E o feijão, minha gente?
— Mmmm!
— Vocês merecem, vocês merecem. E como é? Vai sair um samba?
— Vai, vai. Cadê meu violão?
Seu Cosme olhou em volta sem muito entusiasmo. Depois gritou para o Ximbé.
— Trouxe o agogô, Ximbé? Acorda, Ximbé! Pega o agogô. Sem Braço, o tamborim...
Os outros começaram a se organizar para tocar. Lentamente. Seu Cosme continuou:
— Que feijoada, Djalmira. O que é que tinha no feijão?
— O de sempre, né, seu Cosme.
— Recapitule, pra acordar o pessoal.
— Lingüicinha... paio... costelinha salgada... costelinha de porco... rabinho de porco...
— Mmmm...
— Dê uma passada nas farofas... — pediu seu Cosme, de olhos fechados.
— Farofa com passas... farofa com ovo... farofa com toucinho...
— Mmmm...
— E a couve, gente?
— Mmmm!
— ... a laranja?
— Mmmmm!
— E pra pimenta, nada?
— Mmmmm!
— Obrigada, pessoal. Vocês merecem. Cume, vamo ouvi um pouco de música, seu Cosme?
— Vamos lá. Ximbé, o agogô. Cadê o agogô, Ximbé?
O Ximbé estava dormindo com a cabeça nos braços, sobre a mesa.
— Alguém aí, procura o agogô do Ximbé — bocejou o seu Cosme. — E o meu violão.
— Vamos lá. "No pagode da Djalmira..." Cumé, pessoal? Mas o seu Cosme tinha desistido, depois de examinar suas tropas.
— Desculpe, Djalmira, não vai dar. Sem o agogô do Ximbé, não dá.
Depois inclinou-se para a Djalmira e perguntou:
— Tem certeza que o agogô do Ximbé não entrou no feijão?
Foi então que a Djalmira decidiu. A partir dali, primeiro o samba, depois a feijoada. Durante muito tempo se ouviu em volta da mesa as lamentações da Salete. E os roncos.
VERÍSSIMO, Luis Fernando. Pagode. In: ______. Orgias. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005. p. 43-45.
Exercícios para o verão. Por Luis Fernando Veríssimo.
Ninguém deve descuidar da sua forma física só porque é verão. Para aqueles que negligenciam o seu Cooper porque com este calor, definitivamente, não dá, surge agora um novo método de condicionamento físico desenvolvido pelo Dr. Beer Belly e caracterizado por um mínimo de movimentação com um máximo de aproveitamento. Qualquer pessoa pode usar o método Beer Belly, mesmo que jamais tenha feito um exercício na vida, e com alguns movimentos básicos, repetidos várias vezes ao dia, conservar o tônus muscular, a boa disposição e a alegria de viver. E — importante — tudo isto longe do sol, sem correrias ou suadouros.
De acordo com o método Beer Belly, você deve sentar firmemente diante de uma mesa de bar, respirar fundo, erguer o braço sobre a cabeça e, agitando o dedo indicador, dizer claramente: "Ei, garçom!" Na maioria dos casos você sentirá os benefícios desta flexão imediatamente, com a aproximação do garçom. Caso contrário, repita o movimento até obter o resultado desejado. Então, peça um chope bem gelado. Com o chope na sua frente, você está pronto para a segunda fase do exercício (ver nas figuras abaixo).
O movimento horizontal da mão em direção ao copo põe em ação 17 músculos essenciais, do pouco conhecido Tendão de Ágape (que tem íntimas ligações com o músculo cardíaco e alguma influência no baço e até meio aparentado com um dos pulmões) até o popular bíceps. Muito importante, neste movimento, é a posição do polegar (ou, no grego, Dedão) que deve formar um perfeito ângulo reto com a palma da mão até esta envolver a parte externa do copo. Para melhor aproveitamento, o copo deve estar gelado — e ao contrário de você —, suando muito. É desnecessário realçar a importância do Dedão na vida moderna. Nesta era tecnológica, onde tudo depende de apertar o botão certo, um Dedão desenvolvido pode significar até a sobrevivência do Ocidente como nós o conhecemos.
Este movimento deve ser repetido muitas vezes. Erga o copo na vertical até o braço e o antebraço formarem um V de Valium, ou um V bem largadão. Todo o controle nesta delicada operação, a mais importante do método Beer Belly, depende do pulso. O Dr. Beer Belly recomenda que, para evitar surpresas e o desperdício do precioso líquido, você treine antes com copos menores, como os de caipirinha, até firmar o pulso. O tríceps, os 32 músculos do cotovelo e (não me pergunte como) o adutor da perna direita são os principais beneficiados nesta fase.
À medida que o copo se aproxima dos músculos faciais (que devem ser descontraídos proporcionalmente à aproximação do copo, passando de um meio sorriso de antecipação para um semibico de expectativa), vá girando o pulso lentamente, de maneira que o encontro da borda do copo com o músculo labial inferior se dê num ângulo nunca inferior a 82 graus, para evitar o fenômeno cientificamente chamado de espuma no nariz. Esta fase serve para desenvolver a sincronização motora, o quadríceps e os importantíssimos músculos da deglutição, sem os quais você e eu não conseguiríamos engolir nada e teríamos que nos submeter à alimentação intravenosa, com todos os riscos da agulha rombuda e da hepatite. Uma vez reposto o copo sobre a mesa, depois de repetidos os movimentos A, B e C, só que ao contrário, levante o outro braço e passe as costas da mão na boca para limpá-la. Desta maneira você exercita os músculos do outro lado. A seguir estale os lábios. Dizer "Aaahhh..." é opcional, segundo o Dr. Beer Belly.
E aguardemos o lançamento no Brasil do segundo livro do Dr. Beer Belly, Colesterol é Vida!, publicado pouco antes da sua morte prematura no verão passado.
VERÍSSIMO, Luis Fernando. Exercícios para o verão. In: ______. Orgias. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005. p. 51-53.
De acordo com o método Beer Belly, você deve sentar firmemente diante de uma mesa de bar, respirar fundo, erguer o braço sobre a cabeça e, agitando o dedo indicador, dizer claramente: "Ei, garçom!" Na maioria dos casos você sentirá os benefícios desta flexão imediatamente, com a aproximação do garçom. Caso contrário, repita o movimento até obter o resultado desejado. Então, peça um chope bem gelado. Com o chope na sua frente, você está pronto para a segunda fase do exercício (ver nas figuras abaixo).
O movimento horizontal da mão em direção ao copo põe em ação 17 músculos essenciais, do pouco conhecido Tendão de Ágape (que tem íntimas ligações com o músculo cardíaco e alguma influência no baço e até meio aparentado com um dos pulmões) até o popular bíceps. Muito importante, neste movimento, é a posição do polegar (ou, no grego, Dedão) que deve formar um perfeito ângulo reto com a palma da mão até esta envolver a parte externa do copo. Para melhor aproveitamento, o copo deve estar gelado — e ao contrário de você —, suando muito. É desnecessário realçar a importância do Dedão na vida moderna. Nesta era tecnológica, onde tudo depende de apertar o botão certo, um Dedão desenvolvido pode significar até a sobrevivência do Ocidente como nós o conhecemos.
Este movimento deve ser repetido muitas vezes. Erga o copo na vertical até o braço e o antebraço formarem um V de Valium, ou um V bem largadão. Todo o controle nesta delicada operação, a mais importante do método Beer Belly, depende do pulso. O Dr. Beer Belly recomenda que, para evitar surpresas e o desperdício do precioso líquido, você treine antes com copos menores, como os de caipirinha, até firmar o pulso. O tríceps, os 32 músculos do cotovelo e (não me pergunte como) o adutor da perna direita são os principais beneficiados nesta fase.
À medida que o copo se aproxima dos músculos faciais (que devem ser descontraídos proporcionalmente à aproximação do copo, passando de um meio sorriso de antecipação para um semibico de expectativa), vá girando o pulso lentamente, de maneira que o encontro da borda do copo com o músculo labial inferior se dê num ângulo nunca inferior a 82 graus, para evitar o fenômeno cientificamente chamado de espuma no nariz. Esta fase serve para desenvolver a sincronização motora, o quadríceps e os importantíssimos músculos da deglutição, sem os quais você e eu não conseguiríamos engolir nada e teríamos que nos submeter à alimentação intravenosa, com todos os riscos da agulha rombuda e da hepatite. Uma vez reposto o copo sobre a mesa, depois de repetidos os movimentos A, B e C, só que ao contrário, levante o outro braço e passe as costas da mão na boca para limpá-la. Desta maneira você exercita os músculos do outro lado. A seguir estale os lábios. Dizer "Aaahhh..." é opcional, segundo o Dr. Beer Belly.
E aguardemos o lançamento no Brasil do segundo livro do Dr. Beer Belly, Colesterol é Vida!, publicado pouco antes da sua morte prematura no verão passado.
VERÍSSIMO, Luis Fernando. Exercícios para o verão. In: ______. Orgias. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005. p. 51-53.
domingo, 9 de junho de 2013
Cotovelos na janela
Quase todas as noites antes de dormir eu paro um pouco na janela do quarto para namorar a Lua, quando ela aparece pra me ver. Sempre observo as luzes nos oitavos andares dos prédios da vizinhança. Às vezes são apenas os cigarros acesos e contornos de rostos cansados. Às vezes, cotovelos lançados nas sacadas; outras, olhares perdidos fitando o horizonte buscando respostas. Quando não estou eu mesmo com meu charuto ou meus cotovelos, sou do grupo dos que se debruçam pelas respostas. Lembro sempre também alguma música de Belchior, nosso poeta maior, maldito, que canta o pessimismo e a verdade das nossas experiências urbanas. Seja aquela música em que, "no apartamento, oitavo anadar" o sujeito abre a vidraça e grita - quando o carro passa - "teu infinito sou eu". Seja outra. Que infinito? Que eu? Cidade, solidão, violência, néon, outdoors, estereótipos e canhões de luz do tipo skywalker? Vai-se saber. Dou de bruços com as inúmeras possibilidades de interpretação dos versos - "ou não", diria Walter Franco, outro maldito. "A solidão das pessoas nessas capitais". Parte de outra música de Belchior. Seria a solitude a maior marca de nossa experiência em grupo? O triunfo da civilização? Tanto progresso técnico para encurtar as distâncias e trazer as pessoas mais para perto só nos ajudaram a ficar mais distantes e indiferentes. Os cigarros e as sacadas - tecnologias da solidão - reinam incólumes. Os cotovelos, aparatos orgânicos de esperar, continuam ativados, na espreita por uma videochamada, uma mensagem de texto, nota nos classificados, ou até sinal de fumaça. Mas os olhares continuam perdidos no horizonte sem se encontrar. Buscando respostas, fechados em si, com medo de perguntar.
Novembro de 2012.
Roads of the life
*By M.
Platini Fernandes
I just would
like you knew
how much I
love you
and how I
hope that one day
we will find
ourselves as lovers
on the
tortuous roads of the life
I really
really would like you knew
the
affection true that I feel
is stored
in my warm body
and only
after a fiery night
you can see
me
as really I
am
I just would
like you knew
how do
bother me see you
go back and
forth with these stupid guys
learning new
stupid languages
that it
don’t even know the meaning of the word "saudade"
I really
really would like you knew
how I
love silence you
because you
already proved
which can
be good with the words
So all
your great knowledge is a fool thing
when we
finally find us
on the
tortuous roads of the life
I'll be
there to say that I always loved you
For you look
at me with your smart expression
and say that
you always loved me too
Caminhos da vida
M. Platini Fernandes
eu só queria que você soubesse
o quanto a amo
e o quanto espero que um dia
nos encontremos como amantes
pelos caminhos tortuosos da vida
eu realmente gostaria que você soubesse
que o meu mais tenro sentimento
está guardado dentro do meu corpo quente
e só depois de uma noite ardente
é possível que você me veja
como eu realmente sou
eu só queria que você soubesse
o quanto me incomoda ver você
ir e voltar com esses caras estúpidos
aprendendo novas línguas estúpidas
que nem sabem o significado da palavra saudade
eu realmente gostaria que você soubesse
que eu adoro te ver em silêncio
pois você já me provou
que pode ser boa com as palavras
mas todo o teu conhecimento
ainda não te ensinou a amar
quando finalmente nos encontrarmos
pelos caminhos tortuosos da vida
eu estarei lá pra dizer que sempre te amei
pra você me olhar com aquela cara de sabe-tudo
e dizer que
sempre soube
e que sempre me amou também
Agosto de 2012.
Conto.
Eram cinco e meia da manhã. Da janela do avião ele não compreendia aquela cidade enorme. De cima das nuvens ela parecia um monte de pontos luminosos, abaixo das nuvens ela ficava ainda mais confusa. Ele percebia os prédios, as praças, imaginava o frio que fazia lá embaixo, mas não compreendia a cidade.
Pegou um táxi no aeroporto e seguiu para Pinheiros. Pediu a motorista para parar na Teodoro Sampaio, numa padaria 24 horas, não havia comido nada desde o dia anterior preocupado com a viagem. Um velho português com um chapéu branco dobrado abria um largo sorriso num bom dia. Pediu um pão com mortadela bolognha e um capuccino. Sentou e assistiu ao noticiário local. Uma violência que era corriqueira no lugar de onde vinha, obras da prefeitura, trânsito engarrafado e um milhão de opções culturais. Agora sim, ele sabia que estava na cidade do pecado!
Caminhou a pé até o endereço da irmã de sua amiga que concordara em o receber em seu apartamento. Uma garoa fina começou a cair. Tocou por várias vezes a velha campainha que ouvia tremer lá dentro, mas sem resposta de quem quer que fosse. A chuva engrossava e ele correu até a esquina onde havia uma placa indicando um hotel. “Bali” dizia a placa com a sineta na recepção. Um homem magro, barba malfeita, cara de uns 35 anos apareceu com uma ficha para preencher. “Você fica no 32, terceiro andar à direita, o elevador está enguiçado”.
Ao atravessar a porta estranhou uma bandeja rolante que havia no centro, lembrava uma portinhola de motel por onde se passa a conta e recebe a nota. A cama grande com botões de liga/desliga da TV e controle de luz não enganava: estava mesmo num motel antigo. Ligou o ventilador de teto, baixou um pouco a luz, tirou a roupa e se jogou na cama. Estava exausto porque não tinha conseguido dormir no avião. Lhe incomodava aquele barulho da fuselagem resistindo a pressão, como se o vento fosse abrir aquela lata a qualquer hora. Passara a madrugada trabalhando em cima da entrevista que faria com dois curadores de coleções para sua pesquisa, um dos motivos que o levara ali. Resistindo ao sono ligou a TV num noticiário que mostrava um estilista famoso que havia roubado um jarro de um cemitério. Depois uma chamada ao vivo direto da cratera que se abriu nas obras de construção de uma estação de metrô, uma tragédia que animava a concorrência dos noticiários há uma semana.
A cratera no metrô, o roubo no cemitério, o português com o chapéu dobrado, a taxista negra e gorda, a noite sem dormir, a entrevista que elaborara na noite anterior, a cidade vista do alto, o aperto de mão frio de seu pai no estacionamento do aeroporto... as pálpebras tombaram frente ao sono e ele se imaginou sobrevoando a cidade de madrugada. Sentia o frio lhe cortando a pele. Luzes piscando em avenidas com quilômetros de engarrafamento no check-in do aeroporto. Tudo sucumbindo a uma enorme cratera que se abria no meio da cidade que ia engolindo carros e prédios e pessoas na fila, como em um filme trash de terror dos anos 1980. Uma lava marrom de isopor e lama ia saindo da cratera e subindo; ele se sentia na abertura da novela “Deus nos acuda”, com as belas comissárias de bordo em suas saias curtas empunhando suas bandejas como garçonetes de um rock-bar. Quando a lama chegava ao pescoço acordou de súbito.
Eram 13h38, havia dormido bastante. Sentia cansaço mas achava injusto perder seu tempo dormindo enquanto podia aproveitar a maior cidade da América do Sul. Tomou um banho, vestiu roupas limpas, trancou a porta e saiu. Não sabia por onde começar, mas foi descendo a rua. Na Fradique Coutinho achou vários lugares interessantes para comer. Havia lojas, banca de jornal e banco. “Estou salvo” – pensou. Entrou em um restaurante com vasos de flores frescas à porta. Fez um prato modesto pra sua fome, sabia que precisaria gerenciar bem seu numerário para não passar dificuldades.
Forrou o estômago e seguiu o fluxo da rua tomando uma lata de chá gelado enquanto caminhava. Se apertava contra o frio na fina camiseta que trajava. Percebeu o quão inadequado estava seu vestuário para o clima, num dia nublado. Não fazia aquele frio na sua terra, ninguém usava cachecol ou três peças de roupa sobrepostas de onde vinha.
Não tinha intenção alguma ao caminhar, talvez a falta de objetivo o motivara naquela tarde. Andou até uma larga avenida cheia de restaurantes também, mas estes eram mais sofisticados. Do outro lado da rua placas de interdição e faixas de isolamento. Um guincho gigantesco revolvia a terra. Por uma fresta no tapume percebeu que se tratava da tal cratera do metrô. Subiu a Rebouças e voltou ao hotel.
***
Pela terceira vez tentava visitar o MASP sem sucesso. Havia chegado 7 minutos atrasado. Contrariado, seguiu a Paulista sem rumo, levado pela total falta de objetivo. Depois da Alameda Rio Claro encontrou um homem de olhos puxados vendendo yaksoba. Achou que não poderia perder a oportunidade de provar um dos frutos da migração sino-nipônica para a América, ali, diretamente na rua. Falando um português sem sotaque algum o homem abria um isopor perguntando se queria beber refrigerante ou cerveja. Com certeza aquele homem não estava interessado em discutir o processo de migração japonesa em substituição à mão de obra escrava no começo do século. Como bom turista em busca de coisas exóticas, queria mesmo algo mais tipicamente oriental, mas achou mais adequado tomar uma cerveja. Aquela mistura de macarrão achatado com molho, frango e verduras nem estava tão bom quanto o yaksoba que se acostumara a comer próximo à Praça do Ferreira: comida japonesa feita por chineses legítimos lá no Ceará, aquilo sim era típico! Pagou e saiu rindo-se sozinho na Alameda das Flores.
Não era o fato de comer sozinho ou estar numa cidade estranha, algo mais o incomodava. A silhueta morena de uma jovem vendedora de rosas lhe lembrou a mulher que deixara em sua cidade. Ela por pouco não viajara com ele. Tinha o trabalho, a família, coisas que ela sentia que não podia largar nem pela única semana que ele propôs. Sabia o quanto ia ser bom ter sua presença e poder compartilhar as mesmas estranhas experiências naquele lugar.
Andou até o Centro Cultural da Caixa. Estava em cartaz a mostra de um fotógrafo de celebridades. Mulheres belíssimas em momentos de glamour e também nas atividades cotidianas. Uma foto chamou sua atenção entre todas as outras. Era Brigitte Bardot calçando longas meias translúcidas, vestida em uma toalha, com o cabelo molhado. Imaginou sua musa saindo do banho quente. Pele molhada e olhos semi-cerrados a passar rimmel olhando-se no espelho. Passou 5 minutos inteiros fitando aquela imagem e divagando quase sem piscar os olhos. Era grande o desejo por aquela mulher e Brigitte Bardot fora apenas o meio de resgatar essa lembrança. Ele pensava mesmo era em sua jornalista predileta, que deveria estar entre pilhas de matérias para selecionar, ler e publicar. Sentiu o coração apertar forte e decidiu ligar para ela.
“O telefone solicitado encontra-se fora da área de cobertura ou temporariamente desligado”. Duro golpe em seu desejo. Ali sim sentiu-se completamente sozinho naquela cidade que ainda não compreendera. Não havia nada mais de interessante ali, sentiu vontade de ir embora.
Perambulou por um tempo e mais um tempo pela Paulista. Uma flor caiu sobre seu rosto e ele a tomou nas mãos. “Os ipês só costumam florescer no outono, mas com esse aquecimento global ninguém sabe mais de nada, não é mesmo?” – comentou uma senhora que passava. “Então isso é um ipê!” – pensou consigo. Lembrou das lições da alfabetização, quando aprendia palavras com a letra i. Não havia ipês de onde vinha, mas os livros de abecedário eram feitos naquela cidade, onde os ipês floresciam a cada outono, até os fenômenos de mudança climática mudarem o amadurecimento das flores. Começou a achar o assunto aborrecido e decidiu ligar para ela novamente.
O telefone chamou duas vezes e ela atendeu. Era uma voz de meso-soprano, grave o bastante para ser sensual. Disse que estava entrando no cinema e que não podia falar muito. Ele ensaiou duas ou três coisas para dizer, algo que falasse da falta que ela fazia naquele momento, mas sussurrou somente “tenho uma coisa pra ti”. Girava a flor entre seus dedos, acariciava-lhe o rosto enquanto ouvia a outra voz apressada. “Ok, falo com você depois, quando você puder falar”. Esperou no fone até sentir seus dedos pressionando o botão do aparelho encerrando a ligação. Queria aqueles dedos, queria senti-los, não só ouvi-los, mas eles encerraram aquele diálogo abruptamente.
São Paulo, janeiro de 2006.
M. Platini
Assinar:
Postagens (Atom)




