M. Platini na Rede...
domingo, 3 de novembro de 2013
“Cascata de palavras de Cora Coralina” no Vila Cultural Cora Coralina, Goiânia, Goiás
Recentemente foi inaugurada em Goiânia, Goiás, uma exposição comemorativa dos 80 anos da cidade. Segmentada em cinco temas (Arquitetura/História, Gastronomia, Cultura, Natureza e Pessoas), a exposição chamou a atenção pela forte presença das novas tecnologias. Dentre diversas formas de interação com o público, foi feita uma instalação onde os visitantes interagem com poemas de Cora Coralina, referência literária do estado e do país. De todos os recursos utilizados, destacou-se a utilização do Kinect, aparelho que, através de um sensor de movimentos, lê alguns pontos do corpo e realiza ações a partir de comandos corporais de movimentação.
O Kinect revolucionou a maneira como é jogado o videogame, e vem sendo adotado em situações onde o usuário promove gestos objetivando a efetivação da interação. No caso da “Cascata de Palavras de Cora Coralina”, o procedimento adotado propõe o contato do público com a obra literária de Cora Coralina a partir de uma brincadeira, onde o usuário precisa “tocar” nas palavras que estão caindo para que elas componham o trecho da poesia. Caso o usuário não “toque” na palavra, terá que aguardar algum tempo para alcançar êxito no procedimento, e dessa forma, reunir todas as palavras necessárias para completar o poema, finalizando a “tarefa” interativa. Além de ação intuitiva e fluida, o Kinect realiza uma interação com uma Interface Natural do Usuário - NUI, que concede mais controle e poder ao usuário (WIGDOR & WIXON, 2011).
Vitrine da Fundação Casa Grande, em Nova Olinda-PE
Utilizando criatividade, é possível obter bons resultados no nível de interação visitante-acervo, mesmo que essa troca aconteça apenas no nível mental. Esse é o caso da exposição de longa duração da Fundação Casa Grande, em Nova Olinda, interior de Pernambuco.
Composta em parte por peças arqueológicas e paleontológicas encontradas nos quintais dos moradores da cidade, a exposição traz junto às peças etiquetas de identificação com os dados fundamentais de documentação como material e procedência. Para que os visitantes melhor compreendam o que é a peça e qual o seu uso, a etiqueta utiliza uma forma criativa e eficaz: um desenho feito a lápis de cor pelas crianças da própria comunidade ilustrando como a peça é utilizada e qual sua função. Visto dessa forma, parece uma solução simplória, mas que dificilmente vemos em museus que partem do princípio que o visitante conhece materiais, formas e jargões técnicos. Essa solução low-tech permite ao visitante apropriar-se imediatamente da informação e interagir mentalmente com a peça imaginando seu uso.
domingo, 22 de setembro de 2013
Cotovelos na janela
Quase todas as noites antes de dormir eu paro um pouco na janela do quarto para namorar a Lua, quando ela aparece pra me ver. Sempre observo as luzes nos oitavos andares dos prédios da vizinhança. Às vezes são apenas os cigarros acesos e contornos de rostos cansados. Às vezes, cotovelos lançados nas sacadas; outras, olhares perdidos fitando o horizonte buscando respostas. Quando não estou eu mesmo com meu charuto ou meus cotovelos, sou do grupo dos que se debruçam pelas respostas. Lembro sempre também alguma música de Belchior, nosso poeta maior, maldito, que canta o pessimismo e a verdade das nossas experiências urbanas. Seja aquela música em que, "no apartamento, oitavo andar" o sujeito abre a vidraça e grita - quando o carro passa - "teu infinito sou eu". Seja outra. Que infinito? Que eu? Cidade, solidão, violência, néon, outdoors, estereótipos e canhões de luz do tipo skywalker? Vai-se saber. Dou de bruços com as inúmeras possibilidades de interpretação dos versos - "ou não", diria Walter Franco, outro maldito. "A solidão das pessoas nessas capitais". Parte de outra música de Belchior. Seria a solitude a maior marca de nossa experiência em grupo? O triunfo da civilização? Tanto progresso técnico para encurtar as distâncias e trazer as pessoas mais para perto só nos ajudaram a ficar mais distantes e indiferentes. Os cigarros e as sacadas - tecnologias da solidão - reinam incólumes. Os cotovelos, aparatos orgânicos de esperar, continuam ativados, na espreita por uma videochamada, uma mensagem de texto, nota nos classificados, ou até sinal de fumaça. Mas os olhares continuam perdidos no horizonte sem se encontrar. Buscando respostas, fechados em si, com medo de perguntar.
Marcadores:
Belchior,
Poesias e Canções
segunda-feira, 22 de julho de 2013
Dicionário Ilustrado de Contos da Contemporaneidade. Verbete: DESAFIOS.
Verbete: DESAFIOS.
Certa feita perguntaram ao grande navegador John William Johnson, 37 anos, porque estava dando a volta ao mundo em um veleiro (pela terceira vez).
- Primeiro porque posso. Pode não sobrar saúde, dinheiro ou posso mesmo não estar vivo da quarta vez. Faço uma terceira porque pode não haver a próxima. Faço sem motivo, sem uma causa. Faço porque não tenho mulher nem filhos, não tenho mais mãe nem ninguém que dependa de mim, ninguém para quem a perda da minha vida seria irreparável; porque tenho amigos que me amam e ficam felizes me vendo fazer aquilo que me dá prazer mesmo que me custe a vida. E ainda, faço porque percebi que minha vida vinha sendo até então uma grande busca por algo, algo que eu não sabia o que era e nem alcançava, o que me trazia intensa angústia. Algumas pessoas chamam a isso felicidade, outras chamam de Deus, tem gente que chama até de amor. Às vezes fazer coisas sem um sentido, causa ou objetivo é a melhor maneira de perceber o quanto palavras como destino, dom, sorte, projeto e causalidade são apenas ilusões que alimentamos para ver algum sentido no caos do universo. No fundo tudo isso é fruto de um profundo egoísmo de nossa espécie que desespera em outras vidas (passadas e futuras) por medo de encarar o niilismo do cosmos. É como rir de Deus. Sem que ele entenda a piada.
- Já conseguiu patrocinador?
- Não. Mas estou pensando em pedir doações aqui na paróquia local. Ou escrever um livro de auto-ajuda. Ou o roteiro de uma comédia romântica.
Certa feita perguntaram ao grande navegador John William Johnson, 37 anos, porque estava dando a volta ao mundo em um veleiro (pela terceira vez).
- Primeiro porque posso. Pode não sobrar saúde, dinheiro ou posso mesmo não estar vivo da quarta vez. Faço uma terceira porque pode não haver a próxima. Faço sem motivo, sem uma causa. Faço porque não tenho mulher nem filhos, não tenho mais mãe nem ninguém que dependa de mim, ninguém para quem a perda da minha vida seria irreparável; porque tenho amigos que me amam e ficam felizes me vendo fazer aquilo que me dá prazer mesmo que me custe a vida. E ainda, faço porque percebi que minha vida vinha sendo até então uma grande busca por algo, algo que eu não sabia o que era e nem alcançava, o que me trazia intensa angústia. Algumas pessoas chamam a isso felicidade, outras chamam de Deus, tem gente que chama até de amor. Às vezes fazer coisas sem um sentido, causa ou objetivo é a melhor maneira de perceber o quanto palavras como destino, dom, sorte, projeto e causalidade são apenas ilusões que alimentamos para ver algum sentido no caos do universo. No fundo tudo isso é fruto de um profundo egoísmo de nossa espécie que desespera em outras vidas (passadas e futuras) por medo de encarar o niilismo do cosmos. É como rir de Deus. Sem que ele entenda a piada.
- Já conseguiu patrocinador?
- Não. Mas estou pensando em pedir doações aqui na paróquia local. Ou escrever um livro de auto-ajuda. Ou o roteiro de uma comédia romântica.
domingo, 16 de junho de 2013
Dicionário Ilustrado de Contos da Contemporaneidade. Verbete: LIVRARIAS.
Verbete: LIVRARIAS.
O segredo de conseguir sentar em uma poltrona na livraria é tentar perceber muito além das estatísticas e probabilidades, e penetrar fundo na psiqué humana. Livre-se dos estereótipos preconceituosos se quiser afundar-se em sua poltrona no Éden. Adultos não lêem mais que crianças, e idosos não vêem na poltrona uma boa oportunidade de se deliciar em uma leitura - vêem tão somente um lugar para descansar do pique inesgotável dos netos.
Por exemplo. Esqueça uma poltrona quando uma criança pegar "O ser e o nada". Pode ser que ela nunca mais levante, relativizando a relação do para-si com o para-outro, as noções de sujeito e objeto e a compreensão da fenomenologia. Pense comigo: o movimento mais brusco que a humanidade já viu partindo de um existencialista foi uma tal de Chiquita Bacana, que morava em Martinica e vestia-se com uma casca de banana-nanica. Pelo visto, o existencialismo é incapaz de levar alguém ao menos a sair de uma poltrona.
Já Paulo Coelho é extremamente estimulante. Se você vir uma senhora lendo "As Valquírias" ou "Verônica decide morrer", pode encostar ali ao lado e esperar pelo fim da primeira página. Batata. Ela irá se levantar e pegar um outro livro. Este é o momento perfeito pra se enfiar numa poltrona.
Seguindo essa lógica, Luis Fernando Veríssimo é ruim, assim como Tolkien, Dan Brown, Asimov e Arthur C. Clarke; qualquer coisa da sessão de auto-ajuda, Zíbia Gasparetto (ou o espírito que escreve por ela mas não recebe o copyright) e a biografia de Mailson da Nóbrega são excelentes. Lembre-se: ruim é bom e vice-versa. Ou, em termos estatísticos, a qualidade editorial do livro que a pessoa sentada está lendo é inversamente proporcional ao seu tempo de espera por uma poltrona.
É claro que nem tudo são flores e há mistérios e surpresas nesse submundo cruel de uma livraria que não encontram base explicativa em nenhuma teoria conhecida.
Tomemos como exemplo uma pessoa que deleita-se - como fôra possível - em uma "leitura" da "revista" "Caras". O excesso de aspas é sintomático, não? Não há Tzvetan Todorov que explique o nexo das estruturas narrativas de uma matéria em que o jornalista tenta explicar ao brasileiro médio, aquele que amarga voltas até achar lugar pra estacionar ou toma transporte público todos os dias, como foi o fim de semana de Luciano Zafir na Ilha de Caras. Está posto aquele ruído na comunicação na relação emissor-meio-receptor-mensagem que McLhuan havia nos falado. O leitor não sabe se a mensagem é a bunda photoshopada da modelo (se aquela moça for garçonete eu estou indo aos bares errados!) que estava atendendo Zafir na beira d'água com um biquíni minúsculo ou saber que o pai da Sasha amarga a solidão com um bloody-mary light (supondo que bloody-mary light exista e não seja apenas mais um artifício da imprensa golpista).
Enfim, meus amigos e amigas, conseguir um lugar pra sentar pode ser uma aventura mais difícil que uma missão de James Bond. A difícil arte de conseguir sentar numa poltrona de livraria por algumas horas de paz e sossego imerso em sua leitura preferida pode ser uma grande aventura para os não-iniciados. E não é meu interesse esgotar o assunto nesta crônica. Afinal, vivemos uma contemporaneidade fluida onde a liquidez das relações ser humano-poltrona torna caducas quaisquer estratégias que não consigam avaliar o terreno com sensibilidade, precisão e, porque não dizer, um pouco de deselegância - afinal, na guerra de conseguir um lugar pra sentar numa livraria vale quase tudo...
O segredo de conseguir sentar em uma poltrona na livraria é tentar perceber muito além das estatísticas e probabilidades, e penetrar fundo na psiqué humana. Livre-se dos estereótipos preconceituosos se quiser afundar-se em sua poltrona no Éden. Adultos não lêem mais que crianças, e idosos não vêem na poltrona uma boa oportunidade de se deliciar em uma leitura - vêem tão somente um lugar para descansar do pique inesgotável dos netos.
Por exemplo. Esqueça uma poltrona quando uma criança pegar "O ser e o nada". Pode ser que ela nunca mais levante, relativizando a relação do para-si com o para-outro, as noções de sujeito e objeto e a compreensão da fenomenologia. Pense comigo: o movimento mais brusco que a humanidade já viu partindo de um existencialista foi uma tal de Chiquita Bacana, que morava em Martinica e vestia-se com uma casca de banana-nanica. Pelo visto, o existencialismo é incapaz de levar alguém ao menos a sair de uma poltrona.
Já Paulo Coelho é extremamente estimulante. Se você vir uma senhora lendo "As Valquírias" ou "Verônica decide morrer", pode encostar ali ao lado e esperar pelo fim da primeira página. Batata. Ela irá se levantar e pegar um outro livro. Este é o momento perfeito pra se enfiar numa poltrona.
Seguindo essa lógica, Luis Fernando Veríssimo é ruim, assim como Tolkien, Dan Brown, Asimov e Arthur C. Clarke; qualquer coisa da sessão de auto-ajuda, Zíbia Gasparetto (ou o espírito que escreve por ela mas não recebe o copyright) e a biografia de Mailson da Nóbrega são excelentes. Lembre-se: ruim é bom e vice-versa. Ou, em termos estatísticos, a qualidade editorial do livro que a pessoa sentada está lendo é inversamente proporcional ao seu tempo de espera por uma poltrona.
É claro que nem tudo são flores e há mistérios e surpresas nesse submundo cruel de uma livraria que não encontram base explicativa em nenhuma teoria conhecida.
Tomemos como exemplo uma pessoa que deleita-se - como fôra possível - em uma "leitura" da "revista" "Caras". O excesso de aspas é sintomático, não? Não há Tzvetan Todorov que explique o nexo das estruturas narrativas de uma matéria em que o jornalista tenta explicar ao brasileiro médio, aquele que amarga voltas até achar lugar pra estacionar ou toma transporte público todos os dias, como foi o fim de semana de Luciano Zafir na Ilha de Caras. Está posto aquele ruído na comunicação na relação emissor-meio-receptor-mensagem que McLhuan havia nos falado. O leitor não sabe se a mensagem é a bunda photoshopada da modelo (se aquela moça for garçonete eu estou indo aos bares errados!) que estava atendendo Zafir na beira d'água com um biquíni minúsculo ou saber que o pai da Sasha amarga a solidão com um bloody-mary light (supondo que bloody-mary light exista e não seja apenas mais um artifício da imprensa golpista).
Enfim, meus amigos e amigas, conseguir um lugar pra sentar pode ser uma aventura mais difícil que uma missão de James Bond. A difícil arte de conseguir sentar numa poltrona de livraria por algumas horas de paz e sossego imerso em sua leitura preferida pode ser uma grande aventura para os não-iniciados. E não é meu interesse esgotar o assunto nesta crônica. Afinal, vivemos uma contemporaneidade fluida onde a liquidez das relações ser humano-poltrona torna caducas quaisquer estratégias que não consigam avaliar o terreno com sensibilidade, precisão e, porque não dizer, um pouco de deselegância - afinal, na guerra de conseguir um lugar pra sentar numa livraria vale quase tudo...
Auto do Duélogo Contemporânego
[Apresentação única encenada por Evenice Netinha, Ariane Bastos e M. Platini Fernandes na X Semana Acadêmica de História da UECE em 2004]
Ato Único: Do Valor das Pessoas-coisas e o Escambo Cultural
ou
Dos Tratados da Revolução Mental
- Diga-me, jovem Mancebo, quanto você vale hoje?
- Admirável Mestre, hoje só valho essas 3 moedas de cobre.
- 3 moedas de cobre? Mas isso é mui pouco!
- Ai, que aperreio!
- É só isso que tu vales?
- Na verdade... não.
- Não?
- Não.
- Não foste o que dissestes?
- Sim.
- E como não?
- Ai, que aperreio! Magnífico Mestre, sou tudo o que me ensinastes a ser. Se em algum momento ressôo, é que tu te fizestes como címbalo que me toca. Se hoje valho 3 moedas de cobre é que o cárcere mental em que me enclausurastes chamado “sistema” me diz que um homem só vale a quantidade de dinheiros que tiver no coldre. E sobre as regras do tal sistema...
- Hum... ai, que aperreio!
- Estive pensando...
- Não pense!
- Mas é que sinto...
- Não sinta!
- Mas se eu disser...
- Não diga!
- [gritando] Mas se eu calar até as pedras falarão!
[o Mestre dá as costas em protesto e se vira a cada tentativa do Mancebo]
[com a voz mais branda]
- Mestre, e se não for assim? E se o homem valer mais que os seus metais? Se seu valor for medido não em quantas coisas puder comprar, mas em sua capacidade de sonhar, ou ainda de transformar seus sonhos em realidade!?
- [fazendo pouco] Sonhos... huummm...! Bobagem! O último homem sonhador que conheci morreu na cruz, minto, morreu baleado na porta do hotel por um fã. Não me lembro o nome dele... era John de Nazareth, Jesus Lennon...
- Mestre, essas moedas são o bastante para comprar leite de cabra silvestre e um cesto de amoras. É o bastante para mim, a mulher e a criança por esta semana. Semana que vem trabalho um pouco mais ou caço um servo montês para nos alimentarmos. No resto do tempo posso brincar a criança, amar a mulher e tocar cítara. Assim serei feliz. Não acho que tuas moedas o façam mais valoroso que eu, pois sou feliz, mesmo com pouco, e, segundo o grego de Estagira, o homem vive em busca do bem.
- Estás questionando minha autoridade? O que te deu homem, és agora anarchista?
- Nem sei do que é isso. Sou livre.
- [gritando exaltado] Livre? Livre? Freiheit? Niemand ist frei. Die Freiheit ist der Henker, der den Mann vor Ihrer Ausführung foltert (1). Ninguém é livre sem que eu ordene!
- [começa gargalhando] Sou livre, livre, há, há, há! Livre! Sou livre!
- [se humilhando] Mancebo, te peço por clemência, não te vás, não ganhe este mundo porta-a-fora que só te trará dor e sofrimento. Continuas em minhas terras tu e família. Te protegi de todo esse mal lá fora, és feliz porque criei um mundo para ti. Isso de liberdade é um perigo, são tolices da juventude... Se abandonas tudo o que te ensinei renegas a continuidade de minha criação. Tudo que é meu será teu um dia. Se fores, levas contigo um pedaço meu.
[pensativo] Um pedaço bem mais valioso que todas as minhas terras setentrionais... [desespero no olhar]
- Sou um Mancebo que conseguiu ensinar algo a seu Mestre. Sou um homem que conseguiu se auto-ensinar-se a si mesmo sobre liberdade. Ai, que aperreio...!
[Mancebo sai pela porta. O Mestre debruça-se a chorar no chão.]
[Um novo personagem entra em cena]
- Mestre, Mestre! Demorei-me mas aqui estou!
[O Mestre enxuga as lágrimas cheio de soberba]
- A pontualidade é uma virtude essencial no bom homem. Muito bem, meu jovem, o que sabes tu sobre liberdade?
- Liberdade? Ãh?
- Hahahah hahahaah!
(1) Liberdade? Ninguém é livre. A liberdade é o algoz que tortura o homem antes de sua execução.
Ato Único: Do Valor das Pessoas-coisas e o Escambo Cultural
ou
Dos Tratados da Revolução Mental
- Diga-me, jovem Mancebo, quanto você vale hoje?
- Admirável Mestre, hoje só valho essas 3 moedas de cobre.
- 3 moedas de cobre? Mas isso é mui pouco!
- Ai, que aperreio!
- É só isso que tu vales?
- Na verdade... não.
- Não?
- Não.
- Não foste o que dissestes?
- Sim.
- E como não?
- Ai, que aperreio! Magnífico Mestre, sou tudo o que me ensinastes a ser. Se em algum momento ressôo, é que tu te fizestes como címbalo que me toca. Se hoje valho 3 moedas de cobre é que o cárcere mental em que me enclausurastes chamado “sistema” me diz que um homem só vale a quantidade de dinheiros que tiver no coldre. E sobre as regras do tal sistema...
- Hum... ai, que aperreio!
- Estive pensando...
- Não pense!
- Mas é que sinto...
- Não sinta!
- Mas se eu disser...
- Não diga!
- [gritando] Mas se eu calar até as pedras falarão!
[o Mestre dá as costas em protesto e se vira a cada tentativa do Mancebo]
[com a voz mais branda]
- Mestre, e se não for assim? E se o homem valer mais que os seus metais? Se seu valor for medido não em quantas coisas puder comprar, mas em sua capacidade de sonhar, ou ainda de transformar seus sonhos em realidade!?
- [fazendo pouco] Sonhos... huummm...! Bobagem! O último homem sonhador que conheci morreu na cruz, minto, morreu baleado na porta do hotel por um fã. Não me lembro o nome dele... era John de Nazareth, Jesus Lennon...
- Mestre, essas moedas são o bastante para comprar leite de cabra silvestre e um cesto de amoras. É o bastante para mim, a mulher e a criança por esta semana. Semana que vem trabalho um pouco mais ou caço um servo montês para nos alimentarmos. No resto do tempo posso brincar a criança, amar a mulher e tocar cítara. Assim serei feliz. Não acho que tuas moedas o façam mais valoroso que eu, pois sou feliz, mesmo com pouco, e, segundo o grego de Estagira, o homem vive em busca do bem.
- Estás questionando minha autoridade? O que te deu homem, és agora anarchista?
- Nem sei do que é isso. Sou livre.
- [gritando exaltado] Livre? Livre? Freiheit? Niemand ist frei. Die Freiheit ist der Henker, der den Mann vor Ihrer Ausführung foltert (1). Ninguém é livre sem que eu ordene!
- [começa gargalhando] Sou livre, livre, há, há, há! Livre! Sou livre!
- [se humilhando] Mancebo, te peço por clemência, não te vás, não ganhe este mundo porta-a-fora que só te trará dor e sofrimento. Continuas em minhas terras tu e família. Te protegi de todo esse mal lá fora, és feliz porque criei um mundo para ti. Isso de liberdade é um perigo, são tolices da juventude... Se abandonas tudo o que te ensinei renegas a continuidade de minha criação. Tudo que é meu será teu um dia. Se fores, levas contigo um pedaço meu.
[pensativo] Um pedaço bem mais valioso que todas as minhas terras setentrionais... [desespero no olhar]
- Sou um Mancebo que conseguiu ensinar algo a seu Mestre. Sou um homem que conseguiu se auto-ensinar-se a si mesmo sobre liberdade. Ai, que aperreio...!
[Mancebo sai pela porta. O Mestre debruça-se a chorar no chão.]
[Um novo personagem entra em cena]
- Mestre, Mestre! Demorei-me mas aqui estou!
[O Mestre enxuga as lágrimas cheio de soberba]
- A pontualidade é uma virtude essencial no bom homem. Muito bem, meu jovem, o que sabes tu sobre liberdade?
- Liberdade? Ãh?
- Hahahah hahahaah!
(1) Liberdade? Ninguém é livre. A liberdade é o algoz que tortura o homem antes de sua execução.
Da série: "A vida como não é nas novelas"... Capítulo IX
Capítulo IX:
Márcio da Mazé encostou sua moto-táxi na budega do Seu Collaço e, com aquele ar altivo que lhe é característico, pediu uma cajuína de uva. Soltando o copo americano no balcão perguntou a Marquim Cabeção:
- Qual função você acharia mais adequada para a manutenção da glória de alguém no fim da carreira: ser Irapuete no Programa Irapuã Lima, Tigresa no Programa João Inácio Show ou comentarista esportivo da TV Record?
Sobressaltado com tal colocação, Marquim Cabeção respondeu tergiversando:
- Sem uma consulta prévia às obras de Adorno e a Guy Debord é difícil afirmar com certeza. Acho que Dr. Lair Ribeiro e Roberto Shinyashiki diriam que depende da carreira que a pessoa seguiu ao longo da vida; há variáveis a serem consideradas entre onde seu coração bate mais forte e para onde seu espírito de liderança o guia.
Achando que aquela discussão não valia o que o gato enterra, Seu Colaço limpava o balcão.
Depois de tirar o gosto com um pedaço de mortadela, Márcio da Mazé detalhou sua interrogação.
- Deixa eu pormenorizar meu intróito: para alguém que só é famosa pelas pessoas que namorou e pelas inúmeras vezes que posou nua para a Revista Sexy?
- Você tá falando da Viviane Araújo? - Encarou Cabeção estupefato, erguendo as sobrancelhas. - Mas todas essas opções seriam péssimas para a imagem dela - afirmou.
- Digamos que você só tem essas três opções.
- Irapuete.
- Certeza.
- É menos infame.
Toca a trilha sonora: http://www.youtube.com/watch?v=Zu8kKcPH7co
Márcio da Mazé encostou sua moto-táxi na budega do Seu Collaço e, com aquele ar altivo que lhe é característico, pediu uma cajuína de uva. Soltando o copo americano no balcão perguntou a Marquim Cabeção:
- Qual função você acharia mais adequada para a manutenção da glória de alguém no fim da carreira: ser Irapuete no Programa Irapuã Lima, Tigresa no Programa João Inácio Show ou comentarista esportivo da TV Record?
Sobressaltado com tal colocação, Marquim Cabeção respondeu tergiversando:
- Sem uma consulta prévia às obras de Adorno e a Guy Debord é difícil afirmar com certeza. Acho que Dr. Lair Ribeiro e Roberto Shinyashiki diriam que depende da carreira que a pessoa seguiu ao longo da vida; há variáveis a serem consideradas entre onde seu coração bate mais forte e para onde seu espírito de liderança o guia.
Achando que aquela discussão não valia o que o gato enterra, Seu Colaço limpava o balcão.
Depois de tirar o gosto com um pedaço de mortadela, Márcio da Mazé detalhou sua interrogação.
- Deixa eu pormenorizar meu intróito: para alguém que só é famosa pelas pessoas que namorou e pelas inúmeras vezes que posou nua para a Revista Sexy?
- Você tá falando da Viviane Araújo? - Encarou Cabeção estupefato, erguendo as sobrancelhas. - Mas todas essas opções seriam péssimas para a imagem dela - afirmou.
- Digamos que você só tem essas três opções.
- Irapuete.
- Certeza.
- É menos infame.
Toca a trilha sonora: http://www.youtube.com/watch?v=Zu8kKcPH7co
Marcadores:
A vida como não é nas novelas,
Cofrinho de amor,
Elino Julião
Assinar:
Postagens (Atom)
.jpg)
