[Apresentação única encenada por Evenice Netinha, Ariane Bastos e M. Platini Fernandes na X Semana Acadêmica de História da UECE em 2004]
Ato Único: Do Valor das Pessoas-coisas e o Escambo Cultural
ou
Dos Tratados da Revolução Mental
- Diga-me, jovem Mancebo, quanto você vale hoje?
- Admirável Mestre, hoje só valho essas 3 moedas de cobre.
- 3 moedas de cobre? Mas isso é mui pouco!
- Ai, que aperreio!
- É só isso que tu vales?
- Na verdade... não.
- Não?
- Não.
- Não foste o que dissestes?
- Sim.
- E como não?
- Ai, que aperreio! Magnífico Mestre, sou tudo o que me ensinastes a ser. Se em algum momento ressôo, é que tu te fizestes como címbalo que me toca. Se hoje valho 3 moedas de cobre é que o cárcere mental em que me enclausurastes chamado “sistema” me diz que um homem só vale a quantidade de dinheiros que tiver no coldre. E sobre as regras do tal sistema...
- Hum... ai, que aperreio!
- Estive pensando...
- Não pense!
- Mas é que sinto...
- Não sinta!
- Mas se eu disser...
- Não diga!
- [gritando] Mas se eu calar até as pedras falarão!
[o Mestre dá as costas em protesto e se vira a cada tentativa do Mancebo]
[com a voz mais branda]
- Mestre, e se não for assim? E se o homem valer mais que os seus metais? Se seu valor for medido não em quantas coisas puder comprar, mas em sua capacidade de sonhar, ou ainda de transformar seus sonhos em realidade!?
- [fazendo pouco] Sonhos... huummm...! Bobagem! O último homem sonhador que conheci morreu na cruz, minto, morreu baleado na porta do hotel por um fã. Não me lembro o nome dele... era John de Nazareth, Jesus Lennon...
- Mestre, essas moedas são o bastante para comprar leite de cabra silvestre e um cesto de amoras. É o bastante para mim, a mulher e a criança por esta semana. Semana que vem trabalho um pouco mais ou caço um servo montês para nos alimentarmos. No resto do tempo posso brincar a criança, amar a mulher e tocar cítara. Assim serei feliz. Não acho que tuas moedas o façam mais valoroso que eu, pois sou feliz, mesmo com pouco, e, segundo o grego de Estagira, o homem vive em busca do bem.
- Estás questionando minha autoridade? O que te deu homem, és agora anarchista?
- Nem sei do que é isso. Sou livre.
- [gritando exaltado] Livre? Livre? Freiheit? Niemand ist frei. Die Freiheit ist der Henker, der den Mann vor Ihrer Ausführung foltert (1). Ninguém é livre sem que eu ordene!
- [começa gargalhando] Sou livre, livre, há, há, há! Livre! Sou livre!
- [se humilhando] Mancebo, te peço por clemência, não te vás, não ganhe este mundo porta-a-fora que só te trará dor e sofrimento. Continuas em minhas terras tu e família. Te protegi de todo esse mal lá fora, és feliz porque criei um mundo para ti. Isso de liberdade é um perigo, são tolices da juventude... Se abandonas tudo o que te ensinei renegas a continuidade de minha criação. Tudo que é meu será teu um dia. Se fores, levas contigo um pedaço meu.
[pensativo] Um pedaço bem mais valioso que todas as minhas terras setentrionais... [desespero no olhar]
- Sou um Mancebo que conseguiu ensinar algo a seu Mestre. Sou um homem que conseguiu se auto-ensinar-se a si mesmo sobre liberdade. Ai, que aperreio...!
[Mancebo sai pela porta. O Mestre debruça-se a chorar no chão.]
[Um novo personagem entra em cena]
- Mestre, Mestre! Demorei-me mas aqui estou!
[O Mestre enxuga as lágrimas cheio de soberba]
- A pontualidade é uma virtude essencial no bom homem. Muito bem, meu jovem, o que sabes tu sobre liberdade?
- Liberdade? Ãh?
- Hahahah hahahaah!
(1) Liberdade? Ninguém é livre. A liberdade é o algoz que tortura o homem antes de sua execução.
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