domingo, 16 de junho de 2013

Dicionário Ilustrado de Contos da Contemporaneidade. Verbete: LIVRARIAS.

Verbete: LIVRARIAS. 

O segredo de conseguir sentar em uma poltrona na livraria é tentar perceber muito além das estatísticas e probabilidades, e penetrar fundo na psiqué humana. Livre-se dos estereótipos preconceituosos se quiser afundar-se em sua poltrona no Éden. Adultos não lêem mais que crianças, e idosos não vêem na poltrona uma boa oportunidade de se deliciar em uma leitura - vêem tão somente um lugar para descansar do pique inesgotável dos netos. 

Por exemplo. Esqueça uma poltrona quando uma criança pegar "O ser e o nada". Pode ser que ela nunca mais levante, relativizando a relação do para-si com o para-outro, as noções de sujeito e objeto e a compreensão da fenomenologia. Pense comigo: o movimento mais brusco que a humanidade já viu partindo de um existencialista foi uma tal de Chiquita Bacana, que morava em Martinica e vestia-se com uma casca de banana-nanica. Pelo visto, o existencialismo é incapaz de levar alguém ao menos a sair de uma poltrona. 

Já Paulo Coelho é extremamente estimulante. Se você vir uma senhora lendo "As Valquírias" ou "Verônica decide morrer", pode encostar ali ao lado e esperar pelo fim da primeira página. Batata. Ela irá se levantar e pegar um outro livro. Este é o momento perfeito pra se enfiar numa poltrona. 

Seguindo essa lógica, Luis Fernando Veríssimo é ruim, assim como Tolkien, Dan Brown, Asimov e Arthur C. Clarke; qualquer coisa da sessão de auto-ajuda, Zíbia Gasparetto (ou o espírito que escreve por ela mas não recebe o copyright) e a biografia de Mailson da Nóbrega são excelentes. Lembre-se: ruim é bom e vice-versa. Ou, em termos estatísticos, a qualidade editorial do livro que a pessoa sentada está lendo é inversamente proporcional ao seu tempo de espera por uma poltrona. 

É claro que nem tudo são flores e há mistérios e surpresas nesse submundo cruel de uma livraria que não encontram base explicativa em nenhuma teoria conhecida. 

Tomemos como exemplo uma pessoa que deleita-se - como fôra possível - em uma "leitura" da "revista" "Caras". O excesso de aspas é sintomático, não? Não há Tzvetan Todorov que explique o nexo das estruturas narrativas de uma matéria em que o jornalista tenta explicar ao brasileiro médio, aquele que amarga voltas até achar lugar pra estacionar ou toma transporte público todos os dias, como foi o fim de semana de Luciano Zafir na Ilha de Caras. Está posto aquele ruído na comunicação na relação emissor-meio-receptor-mensagem que McLhuan havia nos falado. O leitor não sabe se a mensagem é a bunda photoshopada da modelo (se aquela moça for garçonete eu estou indo aos bares errados!) que estava atendendo Zafir na beira d'água com um biquíni minúsculo ou saber que o pai da Sasha amarga a solidão com um bloody-mary light (supondo que bloody-mary light exista e não seja apenas mais um artifício da imprensa golpista). 

Enfim, meus amigos e amigas, conseguir um lugar pra sentar pode ser uma aventura mais difícil que uma missão de James Bond. A difícil arte de conseguir sentar numa poltrona de livraria por algumas horas de paz e sossego imerso em sua leitura preferida pode ser uma grande aventura para os não-iniciados. E não é meu interesse esgotar o assunto nesta crônica. Afinal, vivemos uma contemporaneidade fluida onde a liquidez das relações ser humano-poltrona torna caducas quaisquer estratégias que não consigam avaliar o terreno com sensibilidade, precisão e, porque não dizer, um pouco de deselegância - afinal, na guerra de conseguir um lugar pra sentar numa livraria vale quase tudo...

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