segunda-feira, 10 de junho de 2013

Aleluia. Por Luis Fernando Veríssimo.

O Super-Homem se fantasia de Clark Kent. Isto é muito importante. Eu sei que você ainda está de ressaca, mas preste atenção que isto é importante. O Super-Homem "sai" de Clark Kent como você sai de tirolês estilizado, entende? Acorda, pô! O dia-a-dia do Super-Homem é o seu carnaval. É quando ele se solta. A rotina da redação, o cafezinho com Lois Lane no bar da esquina, as preocupações com salário e tempo de serviço, o aluguel do apartamento, a lavanderia, o trânsito. Enfim, as vicissitudes. Esta é a fantasia do Super-Homem. Você está concordando comigo ou está roncando? O Super-Homem voando, lutando contra o mal, de malha azul justa no corpo, é um aborrecido. Não vê a hora de vestir o seu Clark Kent e cair na folia do cotidiano. Garçom, traz outra Brahma. Pode ser da Antarctica.
Agora, imagina o seguinte: você é um tirolês estilizado que se fantasia de técnico em contabilidade. O que você realmente é é um tirolês estilizado. Podia constar no seu título de eleitor: Fulano de Tal, Tirolês Estilizado.
— O que é que o seu marido faz?
— É um Tirolês Estilizado.
Quem pode assegurar que o Clóvis Bornay não era uma ave-do-paraíso fantasiada de cidadão? Digamos que a ave tivesse um nome. Kraktundá, o Pássaro Místico do Himalaia, ou coisa parecida. O seu disfarce era o Clóvis Bornay. Ou o Evandro Castro Lima, o Mauro Rosas, o Jésus, qualquer um. Você está prestando atenção? Mexe com a orelha se a resposta for sim.
Bom. Kraktundá, o Pássaro Místico do Himalaia, concorre num concurso de fantasia para o ano inteiro, realizado no mês mais anticar-navalesco que você possa imaginar. Em agosto, por exemplo. Imagina.
— A seguir, Kraktundá e a sua fantasia de Cidadão. Os sapatos são de couro sintético. Notem o detalhe das meias combinando com a gravata e a originalidade do lenço brotando do bolso do paletó. Óculos de aros pretos. O cinto é afivelado na frente. A camisa tem mangas que acompanham os braços até os punhos, presos com abotaduras. No bolso de trás, realçando a autenticidade da fantasia — que Kraktundá confeccionou depois de estudar a fundo várias lendas do Cidadão —, há uma carteira de couro natural com uma reluzente cédula de identidade e vários cartões coloridos de crédito. No bolso interno do paletó, uma lapiseira em imitação de ouro, um talão do estacionamento, um talão de cheques verde-desmaiado com letras impressas em preto. O chaveiro é de metal autêntico e as chaves realmente funcionam.
Entende? O Cidadão é a fantasia que a ave-do-paraíso só tira no carnaval. Hans, Tirolês Estilizado de quinta categoria, concorre com a sua fantasia de técnico contábil de ressaca dormindo na mesa de um bar em plena Aleluia. Categoria pouca originalidade. Aquele centurião romano ali sai o ano inteiro de Vendedor de Enciclopédia.
— Notem o detalhe da pasta executive preta e o ar de falsa sinceridade. O isqueiro é de verdade.
— A seguir, Maku, Guerreiro Havaiano, na sua original fantasia de Gari da Prefeitura.
— A Favorita do Sultão concorre este ano com Idalina, Comerciária do Méier.
O Cacique de Ramos é uma tribo selvagem que passa todo o ano disfarçando as suas verdadeiras intenções, que são a de acabar com a civilização como nós a conhecemos, oba. Um dia o Cacique de Ramos vai sair e não vai mais voltar. Vai invadir a cidade. A polícia não conseguirá contê-lo. Todas as forças de segurança serão derrotadas a tamancadas. Finalmente, o governo convocará a única força organizada capaz de deter o expansionismo de Ramos: o Bafo da Onça. Mas será tarde demais. O Cacique terá triunfado e dominará as instituições. O carnaval continuará por todo o ano, ninguém mais precisará vestir a sua fantasia de cidadão. Eu serei Príncipe Hindu por toda a vida!
Acordou, malandro? O você fantasiado de garçom, traz mais uma cerveja aqui. O Cacique de Ramos fica cada vez maior, certo? Daqui a dois, três anos, bastará o Cacique se reunir para interromper o trânsito até São Paulo. Não haverá espaço para os aviões pousarem. Os serviços essenciais entrarão em colapso. O governo se renderá. O carnaval, aí sim, tomará conta da cidade. Os reis tomarão o Poder, as odaliscas ocuparão seus haréns, todos os piratas zarparão, xerifes garantirão a ordem, verdu-gos dispensarão justiça, deusas gregas cuidarão dos ritos e escravos etíopes cavarão o metrô. E as aves-do-paraíso percorrerão os jardins com sua empáfia e suas plumas, livres para sempre das suas ridículas fantasias humanas. E você, é claro, vai poder seguir a sua vocação de tirolês estilizado. Hein? Hein? Acorda, pô!




VERÍSSIMO, Luis Fernando. Aleluia. In: ______. Orgias. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005. p. 89-91.

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